Visitantes: um irreverente caldo tropical no rock nacional

[por Andréia Martins]

Inspirado em Novos Baianos e Mutantes, a música do Visitantes é uma salada que traz um pouco da tropicália, de Caetano, dos anos 60, e um caldo do rock’n’roll internacional, como Pixies e Queens of the Stone Age.

Fábio Cardelli (voz e guitarra), Dods (baixo), Sabão (guitarra e 2ª voz) e Thiaguim (bateria e percussão) tocam juntos desde 2004. Nessa época, a banda chamava-se Wasted Nation, e na definição dos próprios, era no estilo “psicodelia noise grunge insana”. Em 2007 “começamos a nos amarrar numa ideia de buscar um rock que tenha a cara do Brasil. Daí nasceu o Visitantes”, contam ao Palco Alternativo.

Fábio, o sósia de Frank Zappa

O nome saiu de uma música de 18 minutos, da Wasted Nation, que pregava o amor e a liberdade incondicional.  Já em 2009, lançaram o primeiro trabalho “Na brasa fugaz da cana queimando”, com 10 músicas, pré-produção de Douglas Godoy (Vanguart) e produção de Jander Antunes (Cachorro Grande).

“Todas [as músicas do disco] são de 2007 pra frente, menos a ‘História Modular’, de 2006, e que aliás diz muito sobre as nossas raízes, na música e na letra. A experiência de contar com o Douglas Godoy e Jander Miranda foi um aprendizado enorme. Não teve espaço pra ansiedade, trampamos as músicas até sangrar o dedo… Chegou a hora de gravar e a gente nem percebeu, foi com bola e tudo!! Pláu”, conta Fábio, em uma narração divertida e única, bem típica das letras que ele escreve para o Visitantes.

Thiaguim completa: “Nos preparamos bastante para esse momento [gravação do discp]. Tivemos uma participação especial importante durante o período pré-gravação, o ilustre camarada ‘metrônomo’. Este preparo inicial facilitou bastante todo o processo e garantiu um som de qualidade”, diz.

Nas músicas, rock com letras  humoradas, que se misturam com bossas, boleros e riffs bem cadenciados. Seguem a mente aberta e livre de conceitos e estereótipos a la Novos Baianos, seja para contar a história do homem-moto ou do castelinho da rua Apa, em Sampa, seja para falar de amor em “Canções de Amores” ou “Hippie Bop Teen”, baladinha bem levada pelo duo Fábio e Laya Lopes, da banda O Jardim das Horas, ou nas faixas puro rock’n’roll “Porto Velho” e “Jambo”.

Dods, sósia de Caco Ciocler

Para lançar o disco – feito de forma independente e em inusitadas latas metálicas multiuso – o quarteto decidiu cair na estrada. Destino: Minas, São Paulo e interior, Mato Grosso e um tour pelo nordeste. Foram 7 cidades (em 5 Estados: BA, SE, PE, PB e RN), 8.300 km rodados em 18 dias “dentro da barca”, simpático apelido dado ao carro de Fábio.

“O tour no nordeste foi uma experiência e tanto! Estávamos com o disco na mão e a idéia era mostrar ele por aí. Daí nasceu a vontade/necessidade de fazer a tour. Escolhemos o nordeste porque tinhamos alguns contatos da cena local e as capitais são todas pertinho uma das outras”, diz Thiaguim.

O trabalho de divulgação do disco “Brasa Fugaz” continua. Depois de passarem por Minas Gerais e Mato Grosso e de rodar o nordeste (veja abaixo), o foco da banda agora é São Paulo.

“Estamos tocando mais ou menos a cada duas semanas, trabalhamos o primeiro semestre com agenciamento da Umpa Lumpa Produções, de Recife, e estamos fechando parceria com uma produtora para um próximo trabalho, que vai dar bastante o que falar nesse semestre agora, junto do lançamento dos clipes”, diz Fábio.

Rock tropical

“O rock é a música das megalópoles”, diz Fábio, sem perder a verve cômico-filosófica. “O nosso rock é tropical porque tropical é o clima que nos faz sentir diferente da galerinha lá de Nova York ou de Londres… São Paulo é uma metrópole tropical…”, diz ele, que ganha um remendo a lá Thiaguim: “…onde as mulheres são mais bonitas e os homens mais peludos! Deve ser o sol!”.

O tom bem humorado é uma das características da banda. Tanto na atitude quanto nas letras. “Nós quatro somos uns palhaços, quem acompanhou a gente em turnê sabe a nossa capacidade insuperável de se divertir com pouco. Eu sou autor da maioria das letras, se a letra não me diverte ou cai em lugar comum, eu risco do caderno. Gosto de letra curta também, eu condenso bem, sempre fui assim. Gosto de poesia concreta, de hai kai, de microcontos, piada de pontinho, essas coisas todas”, diz Fábio.

Um exemplo de músicas com histórias curiosas e engraçadas é “Castelinho da Rua Apa”, um local enigmático para que mora em São Paulo. Localizado na rua Apa nº 236, na esquina com avenida São João, o castelinho foi construído em 1912. Mesmo detonado, ainda é um marco da paisagem paulistana. Foi outrora o palácio de uma rica e tradicional família da cidade e, em 1937, foi cenário de um crime chocante até hoje não esclarecido. Há diversos relatos de gente dizendo que ouve vozes e vê vultos quando passa perto do lugar.

Segundo Fábio, a música veio de uma curiosidade natural que o lugar desperta. “Olhar pra um monstrinho desses em plena avenida São João, pra quem tem um pouco mais de sensibilidade, dá um estalo. Eu fiz essa música no carro, passando por ali em plena seis da tarde de uma sexta. Eu nunca entrei lá, já passei na frente dezenas de vezes. O que eu quero mesmo é que a prefeitura restaure o Castelinho, é um dos pontos turísticos mais legais da cidade. Se algum vereador se propuser a lutar por isso, tem meu voto em 2012”, diz.

Boas parcerias

Sabão, sósia do Mick Hucknall (Simply Red)

A admiração declarada pelos mato-grossenses do Vanguart parece recíproca, pelo menos para Hélio Flanders. “Conhecemos os figuras do Vanguart em 2006. Logo eles mudaram para SP e eu morei com Lazza (tecladista do vanguart) por um tempo. Em pouco tempo percebemos que somos todos da mesma turma. Amizade fácil. Quando vimos estávamos todos altamente envolvidos em grandes campeonatos de futebol de botão”, conta Thiaguim.

Próximos passos e… à espera de Baby

Thiaguim, sósia de Nico Assumpção

Com o disco na mão e rodando com os shows, a banda agora está se dedicando a dois videoclipes, compondo e ensaiando. Nos shows, já dá pra ver algo novo, como a inédita, “Leal”, segundo Fábio, prima da música “Porto Velho”.

Questionado sobre qual visita ele esperaria de porta aberta, não deu outra. “Não sei a dos caras, mas eu adoraria fazer um som com a Baby do Brasil cantando. Ela nos Novos Baianos é uma coisa de louco, nem ligo pra essa questão religiosa. Baby se você quiser cantar no Visitantes me liga!”. Recado dado.

Para ouvir: http://www.myspace.com/visitantesbr

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