Dom Amaro: entre raízes e guitarras modernas

A banda Dom Amaro

[por Andréia Martins]

Lá pelo final dos anos 90, Ribeirão Preto, a tal califórnia brasileira, viveu um razoável boom de bandas próprias. Você tinha diversas opções na cidade. Podia escolher o Paulistânia Rock Bar, o Estação do Estudante, o Bronze, ou consultar a programação de bares como Georgia ou os palcos do Sesc e do Teatro de Arena. Ah, quantos festivais a céu aberto…

Entre festivais e shows em bares, uma ou outra banda da cidade despontava, e não só tocando covers, mas com trabalhos autorais. Por isso, hoje, nesse boom da cena independente, penso que Ribeirão poderia ter um espaço maior na cena, mas proliferaram os covers, e as opções pelas chamadas bandas com música própria foram ficando cada vez mais escassas. Eis que…

Formada há pouco mais de três anos por Matheus Scavazzini (guitarra, teclado, voz), Tadeu Alves (guitarra, voz), Rafael Dorado (guitarra), Rodrigo Melo (contra-baixo) e Neto Calciolari (bateria), a  Dom Amaro é uma dessas novas bandas da chamada linha “autoral”.

A história começou em meados de 2007. Depois do chamado encontro cósmico – aquele em que os integrantes, já amigos, descobrem interesses em comum, como montar uma banda de rock – a banda começou a se reunir frequentemente até que, em 2009, Rodrigo entrou para o grupo e o Dom Amaro nasceu.

“No nosso primeiro show, que fizemos no Groselha Fuzz, demos muita sorte, abrimos para os Pullovers, uma banda com mais de 10 anos de estrada e bastante respeitada. Foi uma bela experiência para os inexperientes”, conta.

Além de Ribeirão Preto, Araraquara é outro palco frequente da banda, que tocou por lá no festival Grito Rock 2010. “Foi nossa primeira experiência fora com um público diferente, atmosfera diferente, enfim, foi um teste para os nervos”.

Quanto ao nome, o quinteto diz não ter nada a ver com a Amaro Barbearia, ponto famoso no centro de Ribeirão. “O nome surgiu da ideia de dar uma ‘cara’ ao gosto amargo, que é comum entre nós, o amargo que a vida deixa em nossa língua. E alguns integrantes da banda pensaram também na ideia de um senhor. Uma espécie de personagem que representasse a banda toda”.

Volume 1

A UNAERP, universidade da cidade, foi mais que palco de encontro da banda. Foi lá que o Dom Amaro se ajeitou para gravar o primeiro disco, usando o estúdio e os instrumentos disponíveis. “Acabou virando nossa casa, a maioria das músicas do Volume 1 foram compostas naquele estúdio”, conta a banda.

“Foi difícil, primeira vez no estúdio. Todo processo foi feito em uma semana, ou seja, a gente quase morava com o produtor. Passávamos as tardes no estúdio gravando 11 músicas. Foi cansativo mas divertido”.

Cena no interior

“A cena atual da cidade em relação à musica não é das mais satisfatórias para bandas com som próprio. Tem muita banda cover, o que é legal, porém o espaço para bandas com repertorio próprio é muito escasso. O que nos impressiona é fato de Ribeirão Preto ser uma das maiores cidades do interior paulista e não dar o devido incentivo à musica independente”, diz a banda.

Eles citam incentivos existentes em cidades próximas, como Araraquara. Lá a prefeitura apóia e financia os eventos da cidade como por exemplo o Araraquara Rock, um festival dedicado às bandas com som próprio.

“Hoje as casas pensam muito em lucro e retorno com as bandas cover. Tem bandas por aí muito boas que não tem espaço e o que a gente precisa, além disso, é fomentar um público que saia de casa pra ouvir musica nova, independente. Isso é difícil e as pessoas precisam se esforçar porque vale muito a pena”, comenta o quinteto.

Atualmente, dois nomes respondem por incentivar a cena independente em Ribs city (quer dizer, Ribeirão Preto, para os menos íntimos) : o coletivo Lavoura Coletiva, que estimula o circuito de bandas locais, e o Groselha Fuzz, festival que leva a Ribeirão diversas banda da cena independente nacional.

Influências

Apesar de lembrarem bandas contemporâneas como as já citadas Los Hermanos, no jeito de cantar, e alguns riff strokianos, a banda carrega uma caixa musical com referências que vão da MPB ao samba, passando pelo rock dos anos 50, 60, 70 e 90, blues e metal.

“Há alguns estilos que todos escutam e outros não, Los hermanos e Strokes são bandas que todos escutam, por exemplo, cada um com sua intensidade. Mas não podemos dizer que é nossa maior influência. Quando gravamos o nosso primeiro cd estávamos numa onda de misturar MPB e rock. Mas nosso próximo cd está ficando bem diferente (a gente acha hahaha), alguns integrantes andam flertando com blues e rock dos anos 70”, diz a banda.

Quanto ao samba, é um gênero com o qual a Dom Amaro diz apenas flertar mas a malandragem e a cadência podem ser percebidas em canções como “Brazilian People Very Good”, “Se não fosse o verão” e “Senhor da Questão” (que depois se rende ao rock). Há também as mais melancólicas e introspectivas como “Última Fé”, “O que era para sobrar”, “A Hora e a Vez” e as mais pops como “Sala de Estar”. Todas estão disponíveis no My Space da banda.

A guitarra dá o tom da levada em todas as canções e em cada canção, há variações que levam a música ora para o lado mais agitado, ora para um mais cadenciado. A mistura de influências – de estilos e sonoridade – vem da bagagem diferencidada de cada um e de como eles entraram na música. Ou melhor, de como a música entrou na vida deles.

Matheus tem como primeira lembrança em relação à música as idas com o pai aos ensaios das escolas de samba gafieiras no Rio. Rafael foi pegando gosto ao ouvir Titãs, Os Paralamas do sucesso e Legião Urbana e com a chegada da MTV, outras bandas apareceram como System of a Down e Metallica. “Vendi meu vídeo game e comprei minha primeira guitarra”, lembra ele.

Rodrigo puxou da mãe, baiana, o “gosto pela musica que envolve um bom groove, ritmos quebrados e percussivos, como o reggae e samba”. O rock, no caso dele, veio depois graças ao irmão mais velho. Ele chegou até a cantar em bandas do colégio, mas disse que ao contrário da maioria, queria tocar baixo. Neto, que cursou musicoterapia, conta que ia nas aulas de teclado mais para ouvir as histórias do professor. “Foi ai que comecei a me encantar um pouco mais com esse sonho de ser músico ter banda e tudo mais”, conta.

Já Tadeu já traz na memória uma coisa mais de raiz. “Música me remete ao programa Viola Minha Viola que eu ouvia muito quando criança. Sentado e quieto, para não atrapalhar, ouvia o programa junto ao meu pai, todo domingo”, recorda.  Depois, as irmãs mais velhas apresentaram Aha, Roxette, New kids on the Block, entre outros.  “Mas parei no The Who The BBC Sessions”, diz ele. “Aí descambei pro rock, fui capturado. Hoje eu já não sei o que me influencia, música é tão simples. Você ouve e canta. É só”. Ponto.

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