Finlandia: um baile eletro-acústico misturando Brasil e Argentina

[por Andréia Martins e Carol Cunha]

No palco do Finlandia, a tradicional a rivalidade entre Brasil e Argentina sai de cena para dar espaço a um baile eletro-acústico que mistura ritmos tão distintos como tango, bossa nova e baião.

Essa é a proposta do duo formado pelo argentino Mauricio Candussi e pelo brasileiro Raphael Evangelista: explorar novas possibilidades de fusão entre ritmos tradicionais e elementos contemporâneos. O duo mostra a que veio nas performances, quando mescla batidas eletrônicas ao vivo (Live P.A)  a  instrumentos acústicos, como o violoncelo, piano e acordeão.

O Finlandia não se encaixa muito em gêneros, é música em movimento, com uma inconfundível pegada latina. Deve ser ouvido como um set, criado a partir de uma colagem de sensações: às vezes uma saudade indefinida quando surgem solos de violoncelo e piano, quebrada com batidas dançantes de cumbia ou house, que põe o povo para mexer o esqueleto na pista – ou na milonga.

“Muitas de nossas canções são melancólicas, não que sejam tristes. Finlândia [o país] nos remete a este tipo de imagem. Além disso, na Finlandia (país) tocam tango… um tango muito especial e melancólico que se aproxima muito a nossas canções. Portanto, podemos dizer que há uma afinidade estética”, diz Maurício ao Palco Alternativo ao explicar a escolha do nome do duo.

Tango na Finlândia? Pois é, neste país nórdico o tango foi reinventado com o tempero local e tornou-se um gênero muito popular -mas isso é uma outra história.

O Finlandia (a dupla) se conheceu há uns dois anos, quando cada um se dedicava a projetos musicais diferentes. Maurício (piano e acordeão) já foi integrante de uma banda argentina bem conhecida dos brasileiros, o Los Cocineros. Raphael foi cellista da Orquestra Filarmônica de São Paulo e tocou com músicos latinos como o cubano Pedro Bandera e o peruano Fernando Elias.

Depois de participarem dos mesmos festivais e viajarem juntos, o argentino apresentou seu projeto de música instrumental ao brasileiro. Estava formada a parceria que renderia o disco “Nandhara”, o primeiro do Finlandia.

Para lançar o disco, o duo caiu na estrada em uma longa turnê que inclui cerca de 30 shows passando pela América do Sul, incluindo Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Bolívia e Peru. Uma viagem que promete novas memórias sonoras.

“Estamos muito contentes. Aprendendo muito de cada cidade que passamos, dividindo o palco com músicos locais e incorporando muita música de diversos lugares”, conta Maurício. Durante os shows, o duo acredita na interação com músicos locais. “É uma maneira de vincular-nos com o lugar através da música, e também aprender”, diz.

No Brasil, já passaram por São Paulo (SP) e tem shows marcados em cidades tão distantes como a alagoana Arapirica e Cuiabá (MT). Em setembro, o duo volta a São Paulo para encerrar a turnê.

Da raiz aos sintetizadores, um medida equilibrada

O duo em Buenos Aires, no VeraVera Teatro

Ao ouvir o Finlandia, nota-se que a criação é bem dividida entre os elementos mais tradicionais da música argentina e os da música brasileira, uma troca sob medida.

“Essa busca sem fórmula pré-definida em mesclar o clássico ao contemporâneo é um atrativo muito forte na música atual. Mas creio que para que o trabalho tenha um conteúdo sincero e valioso, faz-se necessária a fusão de ritmos e culturas que tenham sido vivenciados pelos músicos. Afinal é bem mais fácil você compor em um ambiente musical que escutou por toda a vida”, diz Raphael.

Para Maurício, essa mistura é resultado do “tempo”, da evolução da música. “É uma maneira de apresenta-los [estilos tradicionais] ao novo público, mas também é o resultado do caminhar do tempo, da incorporação de novos instrumentos, de novas tecnologias, de novas formas de vincular-se ao tradicional. Nossa ideia é tocar também gêneros menos ‘para exportação’, como ritmos pouco difundidos fora de nossos países, como a milonga ou o baião”, comenta ele.

O brasileiro ainda destaca a dramaticidade e intensidade da música argentina. “Adoro ritmos tradicionais de qualquer país. Gosto muito da dramaticidade dos temas, tanto nas letras quanto nas melodias. O próprio tango, com a carga melancólica é um ritmo que me identifico muito. Creio que essa preocupação com o sentimento é um ponto que me atrai na música argentina”, conta.

Gravado em São Paulo e Córdoba (Argentina), o disco mostra bem a fusão de ideias, ritmos e culturas da qual falam os músicos. Todas as músicas são autorais, exceto “Buenos Aires Hora Certo”, releitura de Astor Piazzolla

O disco Nandhara (Baritone Records) pode ser baixado gratuitamente no site do Finlandia. Abaixo,  um aperitivo do duo:

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