Depois de uma roadtrip entre índios e cowboys, Los Pirata volta com Les Show

[por Andréia Martins]

Eles não usam roupas coloridas, óculos maiores que o rosto, tênis trocados ou calças justas. E nem precisam. Em vez disso, pense em uma bateria de criança, um baixo-guitara, guitarras red neck e letras cantadas em portunhol. Tudo isso numa mistura de punk rock, bolero, música latina e MPB mexicana. Ou algo perto disso.

O Los Pirata, banda natural de São Paulo, formada por Paco Garcia (guitarra), Jesús Sanchez (Fender VI) e Loco Sosa (bateria de brinquedo), é uma das mais e divertidas da cena alternativa. Na estrada desde 2002 e com dois discos na bagagem – entre eles o espirituoso La-Re-vuelta, de 2006, com versões pitorescas de Fire (Jimi Hendrix) e Blackbird (Beatles) – o trio acaba de lançar seu terceiro disco, Les Show.

O disco é resultado  de duas semanas atravessando quatro estados norte-americanos (Califórnia, Arizona, Novo México e Texas).  “Cidades pequenas do velho-oeste, paisagens desérticas, luzes estranhas no céu e conversas em bares de beira de estrada”, como eles mesmo dizem, serviram de inspiração para o álbum.

Por e-mail o trio – que continua não se levando muito a sério – bateu um papo com o Palco Alternativo sobre o novo trabalho:

Palco Alternativo – Les Show foi gravado num clima roadtrip. O que isso trouxe de diferente em relação aos álbuns anteriores?

Los Pirata – Tínhamos um prazo para compor as canções e conceber o disco. Isso ajudou na maneira de pensar a coisa toda. Deu um ritmo para o disco. Tínhamos um cronograma e concordamos em cumpri-lo.

PA – Li que vocês fizeram o tour à bordo de uma van apelidade de “ballena blanca”. Alguma boa história pra contar durante os trajetos e o que significa esse nome?

LP – Jung puro. O homem dentro da baleia (que era branca, claro). Nossa proteção e nossa caverna. A eterna busca interior. Daí o deserto, na sua plenitude externa, pra contrapor a loucura da experiência. Muitas histórias boas. Conversas em bares obscuros, pessoas interessantes, índios, mexicanos, cowboys, silêncio, estrelas e luzes.

PA – Se tivessem que apresentar o Les Show em uma frase, qual seria?

LP – O melhor disco do Los Pirata até agora, em 2010.

PA – Tive a impressão de que ele está mais pesado que os discos anteriores. É isso mesmo?

LP – Acho que sim. Tem um peso diferente, na verdade. Os discos anteriores possuem um lance mais punk, mais rápido, se é que se mede esse tipo de coisa. Nesse tem mais guitarras e mais vozes.

PA – Sobre as músicas do disco, são mais antigas, foram compostas em algum período especial ou todas são recentes e pensadas para o disco?

LP – O disco foi todo pensado durante a viagem, mesmo que se aproveitando idéias e pequenos pedaços de canções que já existiam. O conceito todo, a cara do album foi sendo moldada durante a viagem.

PA – Qual a história por trás da música Filipino Weird?

LP – Uma babá violenta, festas na beira de uma piscina e muita tequila. Coisa séria.

PA – Muitas bandas brasileiras da cena independente têm tocado no  SXSW. Uns vem com mais otimismo, por verem onde a cena norte-americana independente chegou, e outros menos, achando que aqui no Brasil algumas coisas ainda vão demorar… Em relação às duas cenas, o que vocês acharam? Como foi a experiência de participar?

LP – A experiência internacional, seja no SXSW, em tour com outros artistas ou gravando, é sempre pessoal e intransferível. Foi muito bom para o Los Pirata participar de tudo aquilo. Não é só o show que vale. Há uma interação, uma troca muito saudável entre bandas, produtores, gravadoras e afins. Acredito que a “cena independente” aqui no Brasil ainda é jovem. Ainda há muita coisa pra se fazer, pra melhorar. Estamos no caminho. Uma grande lição pra todo mundo é tocar e catar afinado, arcar com compromissos e responsabilidades, se profissionalizar. Ainda há a falácia do “não se levar a sério” no aspecto de fazer algo simplesmente ruim. Isso deve acabar com o tempo.

PA – Vocês estão na estrada com a mesma formação já há uns bons anos. Tem uma receita pra isso dar certo..rs? O fato de vocês tocarem com outras bandas e artisitas ajuda a dar uma arejada?

LP – Enquanto for divertido e verdadeiro para todos os três, está valendo. Mantemos a nossa integridade e temos liberdade pra falar coisas que, em outras bandas, poderiam ser tabus. No meu caso, sim: tocar com outros artistas e ter meu trabalho solo só contribui para que a “experiência Los Pirata” seja mais legal.

PA – Hoje a banda está inteiramente dedicada ao Los Piratas ou ainda rolam participações em outras bandas?

LP – Cada um tem a sua carreira, seus projetos. Ninguém vive da banda, financeiramente. Nunca viveu. Independentemente da questão financeira, como já comentei, possuímos mais tentáculos fora do Los Pirata. Estamos numa fase ótima, curtindo o novo disco e curtindo tocar as músicas novas. Já está de ótimo tamanho.

PA – Sobre o trabalho gravado com o Pélico como rolou o convite para Loco e Sanchez e como foi a gravação concepção do trabalho? É um Los Piratas em versão desacelerada?

LP – Pélico teve a insensatez de convidar esses caras pra tocar com ele. Eu participei de uma ou duas músicas no disco. Avisei que ele deveria chamar gente séria pra trabalhar com ele mas, parece que ele ignorou. Pélico é, junto com Rafael Castro e Estêvão Bertoni, dos meus compositores/cantores prediletos. Coisa fina.

PA – Sobre a banda, desde a criação a ideia sempre foi fazer um rock irreverente, divertido e meio nonsense? Algumas faixas desse disco novo, como Marfa Lights ou Pirate’s Lullabie, mostram um lado ”diferente” da banda… é sinal de um novo caminho?

LP – Sempre tivemos um bom-humor e uma loucura rolando. Realmente existem canções diferentes no disco novo. Isso reflete a liberdade que nos permitirmos ter, pra que possamos pensar sem amarras ou receitas pré-concebidas. Liberdade, abre as asas sobre nós!

Visite o site oficial do Los Pirata

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