A procura da palhetada perfeita

Banda paulista Mariposa prepara 3º disco enquanto espalha seu rock sujo e acelerado pelos palcos a fora

[por Andréia Martins]

A música une, diverte, conforta. Com essas palavras, Mondrian Alvez define a matéria prima que preenche seus dias – tardes e noites -, seja nas palhetadas aceleradas à frente do Mariposa, no estúdio produzindo ou assistindo bandas de amigos.

“Cheguei a conclusão que sou um cara multimídia, e o pior é que não gosto muito disso. Eu queria fazer uma coisa só, mas também poderia ser um tédio né? Então vou me dividindo em várias partes… O bom é que vou girando sempre em torno na música”, diz o músico.

A história da Mariposa começou há dez anos. Criado por Mondrian e Judaz (com ‘z’ mesmo; guitarrista e principal compositor da trupe) Mallet há uma década, a banda começou como uma dupla, mas depois ganhou novos integrantes – Eduardo Ramirez (bateria) e Rosalem Oliveira (baixo) – e com isso, o tradicional formato roqueiro de voz, guitarra, baixo e bateria.

“É muito louco tocar com os mesmos caras há uma década, me sinto praticamente um Rolling Stone”, diz Mondrian.

Na ativa muito antes do boom da cena independente brasileira ganhar força, o quarteto traz para os palcos um rock sujo, acelerado e com muita distorção, com referências mais clássicas do que contemporâneas, sem contar o flerte com o alternativo, o punk e até a surf music – essa, mais clara no projeto paraleo do grupo, o The Long Borders.

“Na cabeceira sempre tem um disco clássico ou uma nova descoberta. Ouvimos várias bandas atuais, como Queens Of The Stone Age e outros doidões que gostamos. No geral, atualmente tudo está muito plastificado, sem pegada, careta e descartável”, diz Mondrian. O músico elogia novas bandas como Arctic Monkeys, mas não resiste aos dinossauros. “Mas aí você ouve Beatles e Rolling Stones e vê que eles sim eram uns moleques doidões pra valer, melhores em todos os sentidos”, comenta.

Mesmo com dez anos de estrada, a banda segue na linha independente, driblando dificuldades e a correria. Assinar com uma gravadora, todo mundo quer, mas se não acontece, não é motivo para parar.

“O Mariposa tem como principal objetivo o crescimento musical e artístico, ou seja, ter uma carreira sólida, gravar discos e fazer shows. Se percebemos a evolução, é porque algo está funcionando, e isso já é bem suficiente para nos motivar. Ser um rockstar será uma mera coincidência (risos)”, diz Mondrian.

Com dois discos lançados – Use o assento para flutuar, de 2007, e O dia em que tudo se moveu, de 2009 – a banda já está trabalhando no próximo disco, que segundo o guitarrista, “vem pra quebrar tudo”.

“Um novo trabalho sempre tem o gosto do auge criativo. Agora estamos perdendo a vergonha. Não acreditamos mais na fada madrinha, nem no papai noel, viramos lobos velhos! As músicas estão mais diretas, mais agitadas e muito mais legais. Nos shows já tocamos pelo menos metade do que será o novo disco, pretendemos gravá-lo neste final de ano. Será um disco muito forte, sem frescura e sem choro”, comenta.

Sobre os trabalhos anteriores, Mondrian diz que Use o Assento Para Flutuar, o primeiro disco como manda o figurino, trazia um “certo excesso de ingenuidade, com a banda ainda procurando uma identidade”. Já O Dia Em Que Tudo Se Moveu mostra a banda mais madura. “A palhetada mudou, passamos a tocar mais influenciados pelos clássicos, do blues ao punk. Esse disco saiu mais simples e mais coerente”, completou o guitarrista.

No intervalo…surf sem praia

Judaz e Mondrian

Entre um ensaio e uma jam session, o quarteto percebeu que havia material para um outro tipo de som. Daí surgiu o The Long Borders, a versão garage surf da Mariposa, sem praia, sem prancha.

“Depois de ‘pegar essa onda’, foi natural dar um nome a banda e começar a gravar nossas versões. Variamos o cardápio para nos aprimorarmos tecnicamente, diversificar os shows ou mesmo pra se divertir”, conta Mondrian.

Apesar do caráter “informal”, a banda não descarta que o projeto possa render um disco. Com um repertório variado (Centurions, Ventures, Dick Dale, Langhorns, Dragstrip e Hives), a banda tem ainda instrumentos que ficam de fora do Mariposa, como o piano e o trompete.

“O Long Borders tem uma pegada bem puxada pro stoner, é a nossa contribuição para a surf music de quem não tem praia. As versões ficam interessantes, quase parecem autorais. Mas é impossível não reconhecer as melodias, as músicas que escolhemos são bem conhecidas, geralmente são temas de filmes, como Pulp Fiction. Eu gosto muito desse clima de trilha sonora, as músicas ganham mais vida nas imagens”.

Dentro da cápsula música

Não que ele já tenha calculado, mas se parar para contar, Mondrian deve passar mais da metade do dia imerso no universo musical já que além da Mariposa e do Long Borders, eles ainda cuidam do Estúdio Mariposa, criado há sete anos. Uma longa convivência, quase um casamento, mas que a banda vem sabendo levar numa boa.

O estúdio foi montado por Mondrian, Judaz e Ramirez. A ideia era ser um espaço para eles, mas acabaram abrindo o coração para outras bandas, de preferência para amigos. Com o tempo, o estúdio se tornou uma produtora de aúdio e vídeo.

“A música une, diverte, conforta e mais do que isso: nos tornou grandes companheiros. Nesse tempo todo desenvolvemos uma amizade muito forte entre nós, e nos tratamos como irmãos de verdade. No fundo mesmo, queríamos viver somente da música, mas como é um mercado bem difícil, decidimos trabalhar nos projetos que a música esteja presente. É assim, passamos o dia sendo torturados pelos rock’n’roll”.

Para ouvir:

http://www.myspace.com/mariposarock

http://www.myspace.com/thelongborders

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