O pesadelo sonoro de Lou Reed

O músico de 68 anos apresentou-se na capital paulista no último fim de semana com o seu projeto paralelo, o Metal Machine Trio


Lou Reed durante apresentação no SESC Pinheiros. Foto: Natasha Ramos

[Por Natasha Ramos]

Depois do cancelamento de sua vinda à Festa Literária Internacional de Paraty, em agosto deste ano, Lou Reed finalmente encontra-se com seus admiradores tupiniquins em duas apresentações  realizadas no último sábado e domingo (20 e 21/11), no SESC Pinheiros, em São Paulo.

Pela terceira vez no Brasil, a lenda-viva do rock, no entanto, não viria tocar os clássicos memoráveis do Velvet Underground ou de sua carreira solo –como fizera outrora–, mas de seu projeto-experimental-recém-saído-da-gaveta, Metal Machine Trio. Ao lado do saxofonista Ulrich Krieger e do programador eletrônico Sarth Calhoun, o músico revisitou seu disco de 1975, Metal Machine Music, eleito pela crítica da época como o “pior álbum de todos os tempos”.

De fato, a música ­–ou os sons ininterruptos de microfonia, distorções e  ruídos–, tanto do disco quanto da apresentação, são bem incômodos, principalmente para os ouvidos desavisados. Depois da primeira meia hora de show, via-se algumas pessoas deixando o teatro Paulo Autran. À medida que alguns se retiravam do local vencidos por aquele pesadelo sonoro, outros –os fãs mais ferrenhos– persistiam e galgavam lugares mais próximos do músico.

Trajados com camisetas pretas, os três –principalmente Reed– tocavam seus sons desconexos numa espécie de transe. Lou parecia um monge introspectivo concentrado em sua mesa de som. Não falou com o público, nem sequer olhou para os presentes até pegar a guitarra das mãos do roadie que a segurava pacientemente ao seu lado pelo que pareceu uma eternidade.  Foi então que arranhou alguns acordes, olhando pela primeira vez o público inquieto  como que os percebendo naquele instante.

Em um dado momento, Lou sinaliza para os seus dois companheiros de palco pararem de tocar –ele é o regente daquela controversa sinfonia. Toca sua guitarra solo olhando para frente (no que seria um breve descanso aos ouvidos do público) para, em seguida, ser acompanhado novamente por solos ensandecidos de sax de Krieger e sons eletrônicos produzidos pelo notebook de Calhoun.

Como eu, acredito que, durante a audição daquela massa sonora inquietante, outras pessoas tenham reconsiderado seus conceitos do que é música. Assim como Duchamp e outros artistas de vanguarda propuseram novos parâmetros para a arte como era compreendida até então; Lou nos fez repensar os paradigmas musicais no mundo pós-moderno.  Com esse projeto, ele produz a musica não como entretenimento, mas como experiência, mesmo que provocativa e incômoda. E, talvez, essa fosse justamente a proposta. Uma espécie de anti-música, um teste para ver quem conseguiria permanecer até o final.

É sabido que Reed não é conhecido por produzir canções de fácil assimilação. Desde seu début Velvet Underground and Nico (1967), ele sempre tocou um rock`n`roll provocativo, batendo de frente com os tabus (vide Venus in Furs, sobre sadomasoquismo; e Waiting for my man, sobre o consumo de drogas) e abusando da microfonia (vide European Son).

Apesar dos picos em que atingiu uma sonoridade mais comercial, como no disco Transformer (1972), Reed sempre foi um músico essencialmente underground. E a retomada de seu Metal Machine Music, trinta e cinco anos depois de seu mal-sucedido lançamento prova isso.  A despeito do que disseram ou poderiam dizer, ele encara novamente o seu projeto experimental de difícil degustação e insiste em nos fazer (seus admiradores) experimentá-lo mais uma vez.

Como um remédio amargo, engolimos a contragosto na esperança de uma recompensa maior ao final. Eis, então, que Reed levanta-se de sua mesa de som e se dirige, com sua guitarra a tiracolo, à frente do palco, perto da beirada.  Num movimento sincronizado, diversas câmeras fotográficas de formatos variados surgem da penumbra da platéia para captar a imagem de Lou ­–algumas, inclusive, disparando flashes que o fazem piscar incomodado. Ele toca seu instrumento, agradece e deixa o local.

Imediatamente, o público corre para a frente do palco e clama para que ele toque alguma das músicas antigas. Eis, que, atendendo aos pedidos, Reed volta sozinho acompanhado de sua inseparável guitarra e toca uma versão de “I`ll Be Your Mirror” (Velvet Underground and Nico), para deleite e recompensa dos fãs que pacientemente assistiram à cerca de uma hora e meia do que muitos classificariam simplesmente como barulho.

Ao final, ele se levanta, vai novamente à frente do palco para cumprimentar o público e agradece aos que permaneceram até aquele momento. Com esse ato, o cantor abandona completamente o ar blasé do começo da apresentação e conquista ainda mais seus admiradores tupiniquins, que saíram de alma lavada, após ouvirem a canção que valeu pelo show inteiro.

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