O longo passeio do Los Porongas

Divulgação

[por Andréia Martins]

O segundo disco dos acreanos do Los Porongas, O Segundo Depois do Silêncio, é um exagero. No bom sentido, é claro. Não há estilo moderninho, cabelo da moda, roupas justas, essa onda superficial que o rock adquiriu nos últimos anos. O casual, o simples, o barulho, os riffs sujos, o rock. É isso que esse quarteto do norte formado por Diogo Soares (vocal), João Eduardo (guitarras, voz, harmmond B3 e viola caipira), Jorge Anzol (bateria) e Márcio Magrão (baixo), traz neste segundo e excelente disco, além de uma sensação de desconforto causada pelo repertório inspiradíssimo.

Amores e desconforto talvez sejam o norte deste disco, o primeiro trabalho da banda desde a mudança de Rio Branco (AC) para São Paulo, que segundo Diogo, foi assim, “da noite para o dia”.

Não à toa cada uma das 12 faixas tem São Paulo pregada na alma. Para quem ouve, e especialmente vive o dia a dia dessa metrópole que sabe ser tão doce e também deixar gostos tão amargos, o disco é muito pessoal e sensível.

“Lançamos o primeiro disco numa noite no Acre, em 2007, e no dia seguinte viajamos para São Paulo sem volta marcada. Acho que o tempo que passamos aqui foi o que gerou esse [segundo] disco. As canções nasceram depois de um longo período de silêncio, entre nós mesmos, que passamos a morar juntos quando nos mudamos, com nossos fãs e com a própria cena”, conta Diogo ao Palco Alternativo em entrevista por e-mail.

Fortaleza [“no lugar de onde nunca vim/ meus amigos já não sei quem são (…) se meu lugar ainda está aqui? que amores ainda serão?”, perguntam os porongas], Cada Segundo [na parte mais cosmopolita do país, eles tentam achar seu segundo de silêncio em versos como “cada segundo uma segunda chance / quando é que a gente vai deixar cada segundo respirar”) e Bem Longe (“bem longe de casa, buscando chegar / quando a cidade não conversa, necessidade é não ter pressa não”) é a trinca que abre o disco, representando a “chegada” da banda ao desconhecido, enquanto A Dois e Longo Passeio, que fecha o disco ecoando versos como “o mundo é bem mais que o seu quintal”,  refletem como a banda se sente em São Paulo hoje.

Mas antes de fazer música na nova cidade, a banda precisou aprender a sobreviver em São Paulo. “Nossa voz foi nossos shows nesse período. Não foi fácil conciliar a adaptação a uma vida nova numa cidade diferente, com as opiniões de que tínhamos feito a escolha errada, de que tínhamos perdido o timing e, o pior, que o fim da banda era inevitável. A certeza de que a música sempre vence foi o que surgiu desse disco”, diz o vocalista. Daí o estranhamento e desconforto provocados pelas letras.

“Acho que estranhamento e desconforto foram bons motes pra letras do disco. Ele começa angustiado e termina esperançoso. É como se toda a agonia da mudança, da solidão, das expectativas se resolvesse quando começamos a encontrar outras pessoas que também vieram para São Paulo instigados pelo mesmo sonho de viver de arte no Brasil. Fortaleza e Bem Longe podem ser a nossa chegada e A Dois e Longo Passeio como nos sentimos em São Paulo hoje”.

A mudança de eixo também permitiu à banda uma maior troca de referências e experiências com outros artistas que circulam pela cena paulista.

“Essa mudança trouxe mais referências. Assistir mais shows, conhecer e trabalhar com muitos outros artistas foi fundamental para o nosso jeito de perceber e fazer música. Contudo, a maioria das canções nasceu como as do primeiro disco, espontaneamente, sem muito método”, diz Diogo, que se sente particularmente influenciado por nomes como Curumin, Tulipa Ruiz, Daniel Groove e Hélio Flanders, velhos conhecidos da cena paulistana.

O Segundo depois do Silêncio também traz uma banda a fim de experimentar. João toca vários outros instrumentos além da guitarra e compôs trechos fundamentais de algumas letras como em SilêncioA Dois. Já Anzol toca percussão além de bateria e também compôs várias melodias. Grande parte das músicas, segundo Diogo, nasceu de linhas de baixo do Magrão.

O disco também traz participações de Hélio Flanders, do Vanguart, na faixa Mais Difícil, e de Carlos Eduardo Gadelha, do Jardim das Horas, que tocou violão, guitarra e propôs arranjos em diferentes faixas, como um “quinto elemento”.

“Já tínhamos vontade de fazer algo em estúdio com o Hélio há muito tempo e quando compusemos Mais Difícil percebemos que ele estava na música e não haveria outra voz que não a dele para dar a vida certa para a canção. Tanto que é ele quem abre a faixa, eu só canto bem depois”, diz Diogo.

Outra participação foi a de Dado Villa-Lobos. Em 2009 a banda gravou Sangue Novo, uma das primeiras músicas desse segundo disco a ficar pronta. Foi uma gravação teste feita ali mesmo no estúdio de Dado, o Lobo Mao, no Jardim Botânico, no Rio. E dessa tarde no estúdio veio uma daquelas “dicas preciosas” de quem já está há tempos na estrada.

“O Dado teve uma grande contribuição para a sonoridade dessa faixa e também deu a melhor dica dos últimos tempos da nossa carreira. Ele disse que se a gente tivesse uma sala bacana, bons microfones e pré-amplificadores, deveríamos gravar e foi o que a gente fez. Ao invés de alugarmos um estúdio, montamos o nosso em parceria com outros artistas amigos que moram em São Paulo, o Cambuci Roots”, conta Diogo.

Apesar de todas as possibilidades que São Paulo abriu para a banda, em alguns quesitos a capital paulista talvez nunca se torne, de forma completa, o lar doce lar dos porongas. Além da saudade “da gente de lá, do calor, dos amigos e familiares” que ficaram e de Rio Branco, diz Diogo, “Em São Paulo não é fácil achar tucupi ou farinha como a de lá”.

O segundo depois do silêncio (Baritone Records) Produzido por Carlos Eduardo Gadelha e João  Eduardo. Download em http://losporongas. baritonerecords.com.br.

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