Experimentalismo Tupiniquim

Há mais de 30 anos, o grupo Uakti inova ao tocar instrumentos não convencionais confeccionados por eles

Banda Uakti. Foto: Sylvio Coutinho

[Por Natasha Ramos] O som grupo mineiro Uakti é música instrumental brasileira, mas não é só isso. É experimental, é avant-garde, é artesanal. Quase dez anos antes de o Blue Man Group existir, eles já tocavam com instrumentos feitos a partir de materiais como tubos PVC, madeira, metais e vidro.

“O Blue Man Group se inspirou no trabalho do Uakti para fazer aquele espetáculo com os tubos PVC (intitulado Tubes, de 1991)”, comenta o percussionista do Uakti, Paulo Sérgio Santos.

Formado por Marco Antônio Guimarães, Artur Andrés Ribeiro, Décio Ramos e o Paulo, em 1978, o grupo soa diferente da música instrumental a que estamos acostumados. O “tempero” diferente do Uakti deve-se ao fato de, desde o início, os músicos tocarem com instrumentos construídos por eles.

“O Marco Antônio teve aulas com o [músico suíço Anton] Walter Smetak, que dava aulas na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, e foi com ele que aprendeu a construir os instrumentos musicais”, conta o percussionista Paulo Sérgio Santos.

“Quando voltou para Belo Horizonte , trouxe alguns instrumentos bem experimentais”, acrescenta. Nos anos seguintes à sua formação na UFBA, Marco Antônio convidou alguns de seus colegas da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais para tocar os instrumentos não convencionais construídos por ele. Assim nasceu o Uakti, com uma proposta inovadora e, de lá para cá, foram confeccionados mais de setenta instrumentos.Além de tocarem, eles ministram oficinas para crianças e educadores da área de música sobre as novas linguagens musicais.

“Os nomes dos instrumentos foram surgindo de forma espontânea, como a trilobita (ver quadro abaixo), que foi batizada durante um show nosso em Ouro Preto (MG)”, comenta Paulo.

A lenda do nome e Beatles à Uakti

O nome do grupo se origina de uma lenda dos índios Tukano. Uakti era um ser mitológico que vivia às margens do Rio Negro. Seu corpo era repleto de furos que ao serem atravessados pelo vento emitiam sons que encantavam as mulheres da tribo. Os homens perseguiram Uakti e o mataram. No local onde seus restos foram enterrados nasceram palmeiras que os índios usaram para fazer flautas de som encantador como os produzidos pelo corpo de Uakti. “Tudo isso remete à ideia de construir instrumentos, de tirar sons de qualquer coisa”, comenta Paulo.

Com onze CDs lançados e um DVD na bagagem, o grupo trabalha em um novo projeto chamado Uakti instrumental Beatles. Serão as músicas dos Fab 4 tocadas ao estilo único do Uakti. “Desde o início de 2011, estamos trabalhando no arranjo das músicas do Beatles. Devemos lançar o disco em breve”.

Instrumentos

 Informações sobre os instrumentos não convencionais do Uakti podem ser encontradas detalhadamente no site do grupo (www.uakti.com.br). Conheça, aqui, alguns:

Tubos com latas de alumínio: instrumento formado por quatro tubos de PVC em forma de “J”, presas entre si através de um jogo de dez braçadeiras de alumínio. A metade inferior de uma lata de alumínio de refrigerante é fixada na extremidade superior de cada um dos quatro tubos. Ao ser tocado, o fundo da lata percute o tubo e provoca o deslocamento da massa de ar que se encontra em seu interior.

 Trilobita: instrumento temperado baseado em tambores. Formado por dez tubos de PVC de tamanhos variados, conectados a um conjunto de redutores de PVC, que se encaixam em orifícios feitos no tampo de uma mesa por meio de anéis metálicos de vedação de motor de caminhão. Às extremidades superiores de cada conjunto de tubos é esticada uma pele de cabra, normalmente tocada com dedos ou baquetas. Esse instrumento pode ser tocado a quatro mãos.

Marimba de vidro: instrumento cujas teclas são feitas de vidro, o que proporciona notas de maior ressonância que as de madeira.

Marimba de vidro. Foto: Sylvio Coutinho

 Tambor d’água: instrumento original dos índios da Guatemala, constituído pela percussão de uma meia-cabaça sobre a superfície da água. Possui três freqüências bem definidas: grave, médio e agudo, de acordo com as posições básicas da meia-cabaça em relação à superfície da água.

 

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