Leonard Cohen, o poeta pop ontem e hoje

[Por Carolina Cunha]*

Considerado um mestre da poesia cantada, Leonard Cohen é um dos raros artistas que só faz o que gosta e quando quer, alheio às pressões do mercado. Ele pode passar anos longe dos holofotes da fama e criar a passos lentos, para voltar à cena com um trabalho genial.

Em 2012, depois de oito anos sem lançar um disco, ele voltou com Old Ideas e, agora, os fãs têm a oportunidade de revisitar Cohen em seu início, com o relançamento de seu primeiro romance, A Brincadeira Favorita (Cosac Naify).

Nada melhor para entender um artista e suas diferentes facetas. Para Cohen, dar um tempo é quase uma necessidade. Foi assim que, em 1993, depois de décadas de abuso das drogas e álcool, o músico se isolou numa comunidade zen budista da Califórnia e passou a ser chamado de Jikan (O Silencioso). A rotina como monge incluía acordar às 3 da manhã para meditar, cozinhar e cuidar das tarefas domésticas da comunidade. O que parecia ser apenas um retiro espiritual durou cinco silenciosos anos.

Ao deixar o monastério, Cohen ressurgiu com o elogiado álbum Ten New Songs (2001). Conhecido como o “padrinho da melancolia” por suas densas canções, nessa época o cantor chegou a dizer que pela primeira vez na vida não estava deprimido. Parecia ter encontrado um pouco de paz e chegou a pensar em pendurar as chuteiras. Pouco depois, em 2005, o ex- empresário do cantor foi acusado de desviar milhões de dólares. Sem dinheiro, Cohen teve que cair na estrada em uma longa turnê, que bateu a marca de quase 300 shows e rendeu o CD e DVD Live in London (2009).

Pouco depois, em 2005, o ex- empresário do cantor foi acusado de desviar milhões de dólares. Sem dinheiro, Cohen teve que cair na estrada em uma longa turnê, que bateu a marca de quase 300 shows e rendeu o CD e DVD Live in London (2009).

Recentemente, o poeta pop saiu mais uma vez da caverna. Depois de oito anos sem lançar um trabalho de inéditas, Cohen presenteia os fãs com Old Ideas, o décimo segundo álbum de uma carreira de quatro décadas, que ostenta uma discografia pequena, porém, notável.

O CD traz dez faixas que transitam pelo folk, jazz e blues. No disco, o trovador aparece sussurrando histórias com seu vozeirão, acompanhado por seu tradicional coro feminino e uma instrumentação econômica, que valoriza suas palavras. A cantora Jennifer Warners, colaboradora de longa data do músico, descreveu o som de Cohen como “o lugar onde Deus, sexo e literatura se encontram”. Em Old Ideas, todos esses elementos aparecem, embora de um jeito mais divertido e calmo do que em trabalhos anteriores. Ao cantar, Cohen consegue ser triste, sexy e canastrão ao mesmo tempo.

Se um álbum é a fotografia de um artista, logo na faixa de abertura vemos um irônico Cohen apresentar suas credenciais: “Amo conversar com Leonard/Ele é um atleta e um pastor de ovelhas/Ele é um bastardo preguiçoso vivendo dentro de um paletó”.

Nas letras, o amor pode vir de um jeito ácido, que diz “Se você precisar me odiar/Você poderia me odiar menos?”. A quietude aparece numa sonolenta canção de ninar (Lullaby) ou num curioso banjo boiando no mar (Banjo). A melancolia também tem sua vez. Em “Darkness”, Cohen encara a sua própria mortalidade quando diz “Eu não tenho futuro/Sei que meus dias são poucos”.

O outro lançamento revela uma faceta diferente da carreira de Leonard Cohen: a de romancista. Publicado pela primeira vez no país, A Brincadeira Favorita, romance de estreia de Cohen, foi lançando em 1963, quando o autor tinha 29 anos, e retorna agora às prateleiras.

A obra narra a conflituosa transição de Lawrence Breavman da infância, nos anos 50, ao começo da vida adulta, quando vai estudar em Nova York e tenta um lugar ao sol como poeta. “É fácil exibir feridas, as orgulhosas cicatrizes de guerra. O difícil é ter espinhas”, diz um trecho do livro.

Assim como o autor, o personagem é filho de uma família judaica de Montreal. Depois que seu pai falece precocemente, Breavman tem que lidar com a carência afetiva da mãe e encontra apoio em Krantz, seu melhor amigo.

Juntos, vão protagonizar aventuras e diálogos afiados que lidam com questões como a guerra, religião e a difícil arte de virar gente grande. Breavman também descobre o mundo pelas mulheres e elege várias musas, com as quais vive jogos arriscados que misturam o gosto pela sedução e a impossibilidade do afeto.

Narrado em capítulos curtos, o livro apresenta diálogos ácidos e belas passagens com carga poética que refletem o universo leonardiano. Estão lá a ironia, o erotismo, o lirismo, a busca por Deus e a melancolia, que seriam marcas registradas de suas futuras composições musicais.

Antes de ganhar a vida com o microfone, Cohen era bom de letra e começou a carreira como poeta. No ano passado, ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras, um dos mais importantes do meio literário.

Os primeiros versos – A primeira vez que Leonard Cohen escreveu foi após a morte do pai. Ele era um garoto de 9 anos que, poucos dias depois do enterro, vestiu uma gravata do patriarca e escreveu um verso no papel. Na adolescência, aprendeu a tocar violão e arranhou as primeiras composições.

Graduado em Letras, foi na faculdade que conheceu um grupo que fazia recitais poéticos ao som de jazz e montou uma banda de folk. Em 1956, aos 22 anos, publicou seu primeiro livro de poesias, Let Us Compare Mythologies, que abriu caminho para uma bolsa de estudos que o levou para Londres. Cohen não se deu muito bem com os ares londrinos. Em 1960, ele comprou uma casa na ilha grega de Hydra, refúgio de muitos artistas daquela época. Ali, viveu dias ensolarados e encontrou o silêncio necessário para escrever. Logo chegou a companhia de Marianne, um dos seus grandes amores e musa inspiradora de muitas canções.

A temporada grega durou seis anos e rendeu três livros de poesias e dois romances, o de estreia eBeatiful Losers (1966), ainda sem edição no Brasil. Apontado como uma grande promessa da nova geração de escritores, a crítica literária da época comparou o seu estilo ao de J. D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio. Na segunda obra, Cohen chegou a ser chamado de “novo James Joyce”.

Quando voltou para a América, o escritor ficou surpreso ao ser tietado por gente como Bob Dylan, Joan Baez, Allen Ginsberg e Lou Reed, que estavam virando o mundo do avesso em meio à contracultura dos anos 1960. Cohen tinha 34 anos quando decidiu voltar todas as suas atenções para a música.

Morando em Nova York, bateu na porta de empresários do ramo musical, que disseram: “Você não está um pouco velho para este jogo?”. Chamado de “Kafka do blues” por Bob Dylan, o poeta que escreveu músicas como “Bird on the Wire”, “Hallelujah”, “Suzanne”, “The Future” e “Waiting for the Miracle” talvez sempre tenha ensinado os outros a ser velho. Em entrevista sobre seu mais recente disco, Cohen declarou: “Nunca pretendi escrever uma canção didática. Tudo que ponho na canção é minha própria experiência”.

Aos 77 anos de idade, Leonard parece olhar para a passagem do tempo com mais tranquilidade. Ele virou avô e trocou a sua máquina de escrever Olivetti por um computador. Mas ainda se veste com os clássicos ternos pretos e chapéu panamá. Outra marca do velho bardo é a sua voz cavernosa, abusada pela boemia, que agora está mais grave do que nunca. O motivo? “Acho que isso é o que acontece quando você desiste de fumar”, brincou o músico em entrevista a um jornal inglês. Mas, com Cohen, tudo sempre pode mudar.

O ex-fumante promete voltar a acender uma bituca quando chegar aos 80 anos. Isso porque nesta idade, pretende seguir em turnê e voltar a fazer algo de que sente saudade: fumar na estrada. Para alívio dos fãs, a aposentadoria do poeta parece estar longe de acontecer.

[**Matéria publicada no SaraivaConteúdo]

One thought on “Leonard Cohen, o poeta pop ontem e hoje

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *