Cássia Eller, três discos

A cantora Cássia Eller

[Por Andréia Martins]

Não era apenas pela voz, grave e urgente. Não era pela presença, real e notável até para quem tentava desviar o olhar. Não era só pela atitude, os exageros ou as escolhas certeiras de parceiros e versos. É tudo isso junto.

Cássia era uma cantora completa, que atraia pela soma da qualidade, diversidade no repertório, como também pelos dramas e os tais exageros. Afinal, era isso o que a tornava uma cantora possível, real, próxima do público.

Se estivesse viva, a cantora completaria 50 anos em 10 de dezembro. Não é tão difícil imaginá-la aos 50. Provavelmente estaria cometendo as mesmas ousadias e travessuras. Na música, ainda havia muito a ser explorado, e muitos parceiros a serem descobertos.

Quando morreu, em 28 de dezembro de 2001, Cássia tinha gravado, em uma década, oito discos –mais dois póstumos seriam lançados –, e dois DVDs — outros três sairiam depois. Todos os discos tiveram vendas acima de 50.000 cópias, isso em tempos onde a internet ainda não era a bola da vez para os músicos. Abaixo, um pouco sobre os três discos que a gente considera os melhores da cantora, por revelarem as diferentes versões de Cássia.

1992 – O Marginal, o lado alternativo

O segundo disco de Cássia repete o primeiro no quesito diversidade e atitude. Como o nome sugere, é o álbum mais alternativo da cantora, que reforçou de vez a imagem cravada com o primeiro disco, lançada em 90: era uma intérprete de verve roqueira, era do underground, usava sim roupas largas e rasgadas. Era urgente.

O produtor da Polygram, Mayrton Bahia, que produziu os dois primeiros discos da cantora, disse em entrevista ao Jornal do Brasil, em 2008, que a gravadora não acreditava na postura rebelde/rock’n’roll de Cássia quando ela chegou. Já ele, não queria tirar um detalhe do que lhe tinha sido apresentado pelo próprio tio da cantora, Wanderson Clayton, que tinha o objetivo de transformar Cássia na maior cantora do Brasil. O tempo mostraria que a aposta de Bahia foi certeira.

Nas composições de Marginal, um repertório rock e blues, com letras assinadas por Luiz Melodia (“Sensações” e “Amnésia”), Itamar Assumpção (“Sonhei que Viajava com Você”), Mario Manga (“Aquele Grandão”), Arrigo Barnabé (na quase balada “Teu Bem”, primeiro single do disco — veja o clipe abaixo), Rita Lee (uma das compositoras de “Bobagem”), Jimmi Hendrix, entre outros.

De Hendrix, gravou duas canções: “Hear My Train a Comming” e “If 6 Was 9”, gravadas pelo músico no final dos anos 60. Dá para imaginar o que a voz grave de Cássia fez com as músicas…

1999 – Com Você Meu Mundo Ficaria Completo – o lado pop

Depois de seis discos pela Polygram, este álbum marca uma nova fase na carreira de Cássia. Lançado pela Universal, o disco sela a parceria de sucesso da cantora com Nando Reis e coloca Cássia de vez no rol de grandes cantoras da MPB. Mostra também o lado pop da cantora.

A foto da capa do disco já aponta mudanças, com a cantora de cabelos longos, e mais feminina.

O disco é recheado de composições redondas. “Segundo Sol” e “Luz dos Olhos” são dois hits assinados por Nando que viraram hits nas rádios. “Palavras ao Vento”, composta por Marisa Monte e Moraes Moreira especialmente para o disco de Cássia, virou trilha de novela e, bem, já sabem o que aconteceu. “Gatas Extraordinárias”, um sambinha meio pop meio sem-vergonha – no bom sentido.

Além dessas, são destaque “Mapa do Meu Nada”, de Carlinhos Brown, traz boa letra e uma guitarra suave marcando o balanço e a balada “As Coisas Mais Lindas”, também de Nando, com mais cara de poesia do que de música.

2001 – Acústico MTV – roqueira e romântica, uma mistura refinada

Mais um fruto da parceria Cássia e Nando. Depois de produzi-la em estúdio, Nando assumiu a produção do disco ao vivo, que vendeu nada menos do que 500 mil cópias. O grande mérito do disco é mostrar os lados rock e brasileiro de Cássia, revendo alguns antigos sucessos e em interpretações de covers.

Os arranjos também deram um toque refinado ao repertório. Além disso, mostra o peso, não apenas no som, mas também na presença de palco de Cássia ao vivo. Não à toa, foram três discos ao vivo em toda a carreira.

Cássia começa o disco interpretando a música francesa “Non, Je Ne Regrette Rien”, de Michel Vaucaire e Charles Dumont. Depois regravou “Partido Alto”, de Chico Buarque (na qual ela brinca dizendo que Chico é seu verdadeiro pai), outras mais pesadas como “Quando a Maré Encher” e “De Esquina”. Da leva de ídolos da cantora, só faltou mesmo um novo cover de Hendrix. Estão lá Cazuza, Beatles, Renato Russo e Mutantes.

Se o disco começa fino, com Cássia mostrando sua técnica vocal, o acústico termina com um recado que era a cara de Cássia. “Eu quero que você se top top top”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *