Os LPs de dona Abadia

Os discos raros e disputados expostos na loja de dona Abadia

Por Carolina Cunha, em Brasília

O sábado é de sol na W3 sul de Brasília. Na calçada da avenida sem movimento, debaixo da marquise de uma loja da 505, uma parede chama a atenção. Ao lado de uma cadeira, dezenas de LP´s usados estão expostos.

– Pode sentar, moça! Melhor para você procurar. Quem diz é Abadia, a dona da banquinha de vinil. Lá é possível encontrar todo tipo de gênero musical, de trilhas sonoras de novelas da Globo a raridades da música brasileira.

Acho meu lugar no banquinho e começo a manusear os vinis, um por um. Dona Abadia liga uma música ambiente, sintonizada na Antena 1 FM, para distrair os fregueses. Um rapaz, que está ao meu lado, já fuçou a última caixa e diz que vai levar um disco.

Após negociar, o preço cai para R$ 15,00. O rapaz sorri com satisfação. Ele já é cliente antigo e conhece todas as artes de pechinchar da vendedora. “Ela pode ficar irritada. Mas sabe que sempre volto!”, conta ele.

Dona Abadia também conhece o gosto do freguês. “Ele gosta de rock progressivo”, diz ela, que continua a falar.

– Quando é roqueiro é bom porque sabe o valor do disco. O pior é funcionário do Banco do Brasil!, ri.

A vendedora está no ramo de LP´s usados há 16 anos, sempre no mesmo lugar. Começou depois de fazer uma promessa na igreja para conseguir um emprego. Não reclama de trabalhar na rua, só se aborrece quando leva multa da polícia.

– Você tem Maria Bethânia?, pergunto.

Ela procura em todas as caixas. Sabe de cabeça onde estão alguns. Surge o álbum Pássaro Proibido, de 1976. Depois, procura de novo. Nada.

– Um rapaz veio de São Paulo e acabou com meu estoque de Bethânia. Ele comprou todos!, reclama.

Ela tem fregueses de vários lugares e idades diferentes. Tem gente que já chegou a gastar um salário mínimo numa única compra. Existe ainda a ala dos clientes poderosos.

– Tem um assessor do Lula que sempre vinha aqui, ele gosta de Tonico e Tinoco, conta ela, lembrando da dupla caipira.

Para a vendedora, os clientes estrangeiros, que moram na cidade e trabalham em embaixadas ou organismos internacionais, são os melhores.“Estrangeiro compra disco brasileiro mais do que os próprios brasileiros”.

Os discos mais procurados são os de Roberto Carlos, de quem ela é fã. Quando chega um item raro sempre vai embora rápido. Mas uma caixa de Bob Dylan, que custa R$ 350 ainda está à espera de um fã apaixonado. E esse, ela não aceita negociar preço.

Abro a carteira e guardo meus quatro novos LP´s numa sacola improvisada. Pergunto pelo outro Bob Dylan, que está num cantinho. É o disco Hard Rain. Ela olha para mim, pensativa e me desarma:

– Esse você pode levar de graça. Está sem capa!

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