2013 a mil, entre beats e batuques

O quarteto Lavoura fala do ano cheio com novo disco, os dez anos da banda e a turnê comemorativa dos 15 anos do Mercado de Peixe

O Lavoura: Paulo Pires (bateria, programações), Fernando TRZ (piano elétrico, synths), Caleb Mascarenhas (synths, samples e programações) e Fabiano “iB” Alcântara (baixo)

Por Andréia Martins

2013 está sendo um ano daqueles para o quarteto Paulo Pires (bateria, programações), Fernando TRZ (piano elétrico, synths), Caleb Mascarenhas (synths, samples e programações) e Fabiano “iB” Alcântara (baixo), os integrantes da banda instrumental Lavoura. Além do disco novo da banda, eles estão celebrando dez anos de estrada, sem contar os shows comemorativos dos 15 anos do Mercado de Peixe, banda nascida no interior de São Paulo em meados dos anos 1990 e que tinha os músicos em sua formação. Agenda cheia é pouco.

“É claro que a gente só para e pensa quando alguém nos lembra disso”, conta Fabiano sobre a primeira década da banda, em entrevista por e-mail ao PALCO. “Decidimos não comemorar esses dez anos porque no começo era só eu e o Fernando, era uma espécie de embrião do Lavoura, e também um laboratório em uma fase de mashups, que se estendeu até o disco Kosmophonia, uma transição para a linguagem mais orgânica que alcançamos no Nu Steps (último disco da banda)”, completa ele.

Quando falam sobre o tempo de estrada, a banda se lembra das mudanças que viu na música, fazendo música, e que não podem ser separadas de todas as experiências vividas pelos próprios músicos.

“Pegamos a transição dos anos 1990 para 2000 fazendo música. De  lá pra cá aconteceu tudo na música brasileira e mundial, todas as influências das últimas cinco décadas foram assimiladas revisitadas e revividas e ao mesmo tempo implodidas, várias bandas e artistas nos revelam isso, e acreditamos que esses momentos nos trazem inspiração em nosso processo de composição”, comenta Fernando TRZ.

Os dois últimos discos do Lavour, Kosmophonia e Nu Steps

Os últimos meses têm sido dedicados à finalização do novo disco, Photosynthesis, o quarto da banda. Gravado no ateliê La Tintota, na Barra Funda, em São Paulo, onde o grupo realiza seus ensaios e labs de arte visual, o disco terá sete faixas, será prensando em vinil e CD e será lançado no esquema de crowdfunding.

“É um caminho. Não tem mais gravadora, tem uma crise mundial violenta. Está todo mundo fazendo. O nosso ainda não está bem definido sobre como vamos fazer, se em uma plataforma de fora ou nossa mesma, estamos conversando internamente”, diz Fabiano sobre a opção pelo financiamento coletivo.

Enquanto isso, algumas músicas já estão sendo tocadas nos shows. Fernando conta que o disco traz faixas bem diversificadas em estilo, mas que se complementam e dialogam de alguma forma e compõe o universo sonoro, principalmente nos timbres, nas captações e ambiências que integram a linguagem cinemática que a banda busca em seu trabalho.

“Ele é bem representativo de tudo que a gente gosta”, comenta Fabiano, que cita entre as faixas de destaque Viva Bertrami!, homenagem ao tecladista José Roberto Bertrami (1946-2012), do trio Azymuth, banda brasileira formada em 1973 no Rio de Janeiro que passa pelo jazz fusion, samba e o funk; Red Moon, com pegada mais pop e com referências à música eletrônica francesa, e Camaragibe, a preferida do músico e definida pela banda como uma faixa setentista old school, na linha do The Meters e Beastie Boys (fase instrumental).

Red Moon e Photosynthesis são as faixas mais antigas, compostas em um período de dois anos, e as demais músicas foram feitas em jam sessions entre 2012 e 2013.

Globalizando o regional

Misturar a cultura popular em seus trabalhos não é uma novidade para Fabiano e Fernando, que antes do Lavoura experimentaram a união da sanfona e da viola caipira com o pop e o rock na banda Mercado de Peixe, que em 2013 está completando 15 anos. Para celebrar a data de um projeto que nunca chegou ao fim de verdade – embora até Fabiano confesse que ele mesmo fica na dúvida às vezes-, a banda já tocou em algumas cidades do interior, como Bauru (terra natal da banda), Ribeirão Preto, Sorocaba, Rio Preto e esperam passar por São Paulo até o final do ano.

“Não está sendo fácil conciliar as agendas, mas estamos tendo sorte em conseguir, afinal, a maioria tem outras profissões além da música. Mas o Mercado é sempre legal fazer, pois é um encontro de grandes amigos que sempre trocam muitas informações. Com relação ao público, é muito bom ver nossa música sendo ouvida e curtida por outras gerações fora a nossa, seja mais nova ou mais velha, é sempre uma grande festa celebrada por todos, como foi desde o início da banda”, diz Fernando.

Fabiano conta que a banda produziu mais quatro faixas inéditas. “Tocando o repertório antigo percebi que tem uma coisa meio punk rock no som. É só paulada, difícil encaixar um negócio novo no meio. Tem a onda groove, black, também. Mas as músicas novas são cada uma de um jeito, desde uma coisa meio Edu Lobo, outra em que nós nos inspiramos em Marku Ribas, até um frevo”.

Além dos shows, a banda disponibilizou o álbum intitulado XV, com preciosidades como Brasil Novo e Menina, e raridades, como a versão de Forró de Santo André/Remelexo, de Hermeto Pascoal, b-sides como Trans Rondon Express e ainda a inédita São Gonçalo.

O Mercado de Peixe começou sua trajetória na década de 1990, com clara influência do movimento mangue beat em sua busca por um som híbrido, unindo o urbano e o rural. É aí que você percebe a riqueza de referências nesses trabalhos. Do coco Menina, uma mistura de África e Brasil, ao acid jazz psicodélico de Beats e Batuques, passando pela jam mais experimental que aponta na direção do som feito hoje pelo Lavoura, em Luar de Eldorado, ou ainda no dueto de gaita e guitarra em Trans Rondom Express, quando no punk rock ska de Pau Pra Toda Obra. Todas essas faixas estão na coletânea recém-lançada, disponível para download (clique aqui) e no Soundcloud (clique aqui).

A coletânea é uma verdadeira colcha de retalhos sonoros que se soma aos outros trabalhos do grupo, da primeira fita-demo, Eletrônico (1998) aos discos Aparições (1999), Beats & Batuques (2001), Roça Elétrica (2003) e Territórios Interioranos (2006).

O maior legado do Mercado talvez tenha sido mostrar o lado B da música feita no interior. “Lutamos contra o estereótipo de que o interior é um lugar atrasado e também exploramos fusões bem malucas dentro da música brasileira. Só hoje que percebemos o que estávamos fazendo, na real. Acho que é sempre assim, né? Não chegamos a estourar, mas para uma banda média fomos bem longe, lançamos um disco por uma gravadora, a Atração, que nunca nos pagou um centavo, mas que nos deu uma certa projeção na mídia quando Roça Elétrica saiu em 2004. Na verdade, antes deles, já havíamos emplacado a Festa da Roça Elétrica, no Altas Horas, via Hermano Vianna, que hoje é um dos roteiristas do Esquenta!”, relembra Fabiano.

Vale lembrar que a cena dessa leva de bandas que bebeu de referências africanas, misturando urbano e rural, a cidade e o interior, foi chamada pelo antropólogo Hermano Vianna, de “pós- caipira”. Entram na lista Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, entre outras.

“Acredito que termos incorporado instrumentos acústicos com a sanfona e a viola, tirando eles de um lugar comum e misturando a referências como música eletrônica, rock e pop, provou  que era possível globalizar o regional, e muitas pessoas se identificaram com isso na época, por estar acontecendo o movimento mangue beat também. Era um mangue beat por estado brasileiro”, brinca Fernando.

Lá do início dos aos 1990, não era fácil prever que a indústria fonográfica passaria por tantas mudanças em tão pouco tempo. Para uma banda que vem acompanhando isso de perto, desde então, prever o que vem ainda é um desafio. “A música é o maior capital político, econômico, social e psicológico do Brasil. O vinil voltou com tudo porque ele é um objeto perfeito, tátil, emocional. É um fetiche. Estamos voltando a dar valor às experiências verdadeiras, talvez seja uma reação à frieza da internet”, diz Fabiano.

O colega de banda vai na mesma onda. “Não há com prever, a indústria fonográfica desmoronou e está passando por uma total transformação, tudo está sendo inventado e reinventado, tanto a indústria quanto o artista ainda estão se situando, mas o mais importante disso tudo é que o artista tem a chance de produzir com sua liberdade total de criação e gestão, e também criar seus caminhos e modos de funcionamento e financiamento, criar seu próprio jeito de fazer música e arte”.


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