Sandra Coutinho, a Mercenária persistente

[Por Rafael Gushiken]


(Sandra Coutinho com as Mercenárias nos 35 anos do Baratos Afins, SESC Consolação)

O ano de 2013 foi muito significativo para Sandra Coutinho, pois completou-se os 30 anos de sua banda Mercenárias e também os 35 anos do pioneiro selo independente e loja de discos na Galeria do Rock, Baratos Afins. Tal marco rendeu um show de comemoração no SESC Consolação, do qual Sandra participou e onde dividiu o palco com parceiros musicais de longa data, como Edgard Scandurra e Sérgio Pamplona (Pamps).

São anos de muitas histórias para contar e reafirmar a importância de Sandra no pós-punk brasileiro, como uma das Mercenárias, importante entre bandas como Ira!, Inocentes e Fellini, surgidas no cenário musical underground paulistano, na expressiva década de 80.


(Sandra Coutinho nos 35 anos do Baratos Afins, SESC Consolação)

FASE EMBRIONÁRIA

No início, em 1982, a banda era formada por ela no baixo, Rosália nos vocais, Ana Machado na guitarra e Edgard Scandurra na bateria (sim, na bateria!). “A gente se conheceu na USP, sem noção de qualquer rumo da banda, apenas para se expressar. De minha parte, o que me moveu foi a paixão”, conta a própria Sandra em entrevista para o Palco Alternativo.

Sobre a passagem do Edgard, Sandra lembra que ele foi parte da banda, “amava e ama as Mercenárias”. “Quando viu o nosso ensaio, se ofereceu para tocar e com isso, construiu juntamente conosco, o conceito musical. Ele teve que sair, por uma questão de falta de tempo, pois na época ele tocava em 3 bandas”, e uma dessas bandas era o Ira!, a escolhida por ele para seguir a carreira musical.

OS DOIS ÁLBUNS

Lou Moreira assumia as baquetas e as Mercenárias gravariam os dois únicos e clássicos álbuns, o “Cadê as Armas?” (1986), pelo selo independente citado anteriormente, Baratos Afins, e o “Trashland” (1988), lançado pela gravadora EMI.

“No primeiro álbum, gravamos praticamente ao vivo, com algumas correções e assim teria que soar o som da banda mesmo, ao vivo. Uma produção limitada economicamente e um dos critérios para a escolha do repertório foi limando as músicas que tinham palavras de baixo calão”, recorda Sandra na época das gravações do “Cadê as Armas?”, que foi um grande sucesso de público e trouxe notoriedade para a banda com os hits lembrados até hoje, como “Me Perco Nesse Tempo”, “Polícia”, “Santa Igreja”, “Inimigo” e “Pânico”.

A banda já com um certo reconhecimento, conseguia um contrato com uma major para a gravação do segundo álbum “Trashland”, e Sandra conta a experiência dessa conquista. “Foi um luxo para nós, ir para o Rio de Janeiro, ficar por lá três meses, poder escolher os produtores e convidados e produzir um disco de estúdio, digo, é diferente esse tipo de produção, pois houve mais tempo, conceito, enfim, quando se tem um pouco mais de grana, pode se arriscar, imaginar, criar”.

Na época, esse álbum foi aclamado pela crítica musical e escolhido como o melhor álbum daquele ano no “Prêmio Bizz”, da extinta revista homônima. Também possui sucessos emblemáticos como “Há Dez Anos Passados”, “Somos Milhões”, “Ação na Cidade” e a própria faixa-título, “Trashland”.

O TÉRMINO E O RETORNO

Ainda nos anos 80, a banda encerra as atividades, depois de dispensadas pela EMI, todas as integrantes abandonariam a carreira musical, com a exceção de Sandra que vai morar em Berlim, para estudar e trabalhar na cena alternativa da cidade. “Só eu que era uma idealista, que estava querendo experimentar outras coisas musicalmente falando. E cada uma seguiu seu rumo”.


(As Mercenárias com Sandra, Giorgia e Pitchu nos 35 anos do Baratos Afins, SESC Consolação)

Em 2005, o selo inglês Soul Jazz lança uma coletânea, nos formatos LP e CD, com as músicas dos dois álbuns da banda, intitulada “O Começo do Fim do Mundo (Beginning of the End of the World: Brazilian Post-Punk 1982-85)”. Isso impulsionou Sandra Coutinho a voltar ao Brasil e retomar a banda, com as novas integrantes Giorgia Branco e Pitchu Ferraz. Rosália chegou a participar dessa volta, mas logo sai, deixando Sandra assumir os vocais.

Neste ano de 2013, houve um show comemorativo dos 30 anos da banda, realizado no Centro Cultural da Juventude, e teve participações especiais de Clemente (Inocentes), Karina Buhr, do já esperado Edgard Scandurra e da ilustre Maria Alcina, que cantou o seu sucesso “Fio Maravilha” com As Mercenárias.


(Sandra Coutinho com as Mercenárias e seus parceiros musicais do Smack, Pamps e Edgard, nos 35 anos do Baratos Afins, SESC Consolação)

Curiosidades

• As músicas que ficaram fora do repertório dos dois álbuns, justamente por conter palavras de “baixo calão”, como Sandra afirmara, já foram disponibilizadas para download na internet, e os únicos registros delas são gravações em formato demo-tape realizadas no início da carreira e de apresentações ao vivo pelos clubes noturnos na década de 80. Clique aqui e escute todas essas raridades!

• Na faixa “Santa Igreja”, do álbum “Cadê as Armas?”, participaram da gravação nos backing vocals do refrão “Salve! Salve!”: João Gordo (Ratos de Porão), Vange Leonel (Nau, na época) e Edgard Scandurra (praticamente um integrante da banda).

• O álbum “Trashland” ficou fora de catálogo da gravadora EMI e nem chegou a ser lançado em CD na década de 90, ao contrário do “Cadê as Armas?”, que foi lançado em 1996, contendo na edição em CD, o acréscimo de três faixas ao vivo, de uma gravação realizada em 1988 na extinta casa de shows paulistana, o Projeto SP.

• Nos anos 80, em paralelo às Mercenárias, Sandra Coutinho integrava a banda Smack, juntamente com Thomas Pappon (ex-Voluntários da Pátria e integrava o Fellini em paralelo), Sérgio Pamplona (conhecido como Pamps) e Edgard Scandurra, que ficou só por um tempo, pois depois decidiu se dedicar integralmente a sua banda Ira!.

• A ex-baterista Lou Moreira, hoje é o conhecido transexual Léo Moreira Sá, que atua em peças de teatro do Grupo Satyros de São Paulo, e também é ativista das causas e direitos dos LGBTT. Recentemente foi entrevistado pela Marília Gabriela, no programa televisivo “Gabi Quase Proibida”.

(Perdidos na Noite, 1988)

(Fábrica do Som, 1983)

(Clipe “Pânico”, 1987)

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