Pete Seeger, o folk e o poder da música

Pete Seeger, lenda do folk, em foto no início da carreira

[Por Andréia Martins]

O banjo de Pete Seeger parou de tocar. Na noite de 27 de janeiro, uma das principais vozes do folk encerrou sua jornada por aqui, aos 94 anos, deixando duas certezas como herança: a música tem poder e que nós temos que nos comprometer.

Andava meio sem notícias de Pete, mas me lembro de ficar incrédula ao vê-lo unir-se às manifestações do Occupy Wall Street em Nova York, em 2011. Na verdade, não era para ser tão surpreendente assim. Se teve algo que Pete fez durante sua carreira foi se comprometer com as causas nas quais acreditava –antimilitarismo, igualdade de direitos civis e até pela limpeza do rio Hudson. Isso o levou a ser censurado e perseguido pelo marcathismo, mas foi o que o manteve fiel à música.

A história musical de Seeger começa com o Almanac Singers – ou melhor, com a mãe, uma musicista frustrada e depois com a madrasta bem-sucedida na música.

Seeger desistiu da Universidade de Harvard (ele estava na mesma classe de John F. Kennedy), e acabou conhecendo Woody Guthrie, com quem viajou e tocou em 1940. Guthrie foi sua inspiração para começar a compor suas próprias canções. Os dois formaram então o Almanac Singers, já como uma verve política. A brincadeira acabou quando Seeger foi convocado para servir o Exército, em 1942.

Na volta, o grupo se reuniu com novos músicos formando o The Weavers, que despontou no lendário bairro do Greenwich Village, em Nova York – de onde também saíram Bob Dylan, Joan Baez, Dave Van Ronk (inspiração para o filme Inside Llewyn Davis, dos irmãos Cohen) e outras estrelas do folk– para o sucesso no final dos anos 1950. No entanto, acabaram boicotados das TVs e rádios pela censura e marcathismo, o famoso caça às bruxas. Nesse meio tempo, em 1948, escreveu How to Play the Five-String Banjo, um livro de instruções que iniciou muitos músicos no banjo.

Em carreira solo ele ajudou a popularizar aquela que seria um dos hinos do movimento de luta pela igualdade de direitos civis nos anos 1960, “We Shall Overcome”, cuja versão original nem o próprio Seeger sabia ao certo quem tinha escrito nem quando. A música serviu de hino para diversas marchas lideradas por Martin Luther King Jr., a quem Seeger diz ter encontrado apenas duas vezes.

O “boom” do folk no início dos anos 1960 o levou de volta ao grande público pela voz de artistas como o Kingston Trio e os Limelighters que tinham entre seus sucessos “If I Had a Hammer” e “Where Have all the Flowers Gone”, composições de Seeger. O The Byrds fez o mesmo, levando músicas do mestre como “Turn! Turn! Turn!” e “Bell’s of Rhymney” em versão eletrizada para um público mais jovem.

O mesmo aconteceu nos anos 2000, quando Bruce Springsteen, que tinha Seeger como ídolo, foi o gravou releituras do trabalho do cantor no disco We Shall Overcome: The Seeger Sessions, de 2006. Embora já conhecesse suas canções há tempos, foi apenas nos anos 1990 que Springsteen se aproximou da obra do compositor. Sobre o resultado, Seeger disse apenas que “poderia ter ficado mais sério”.

A ideia de regravá-lo veio de uma sensação de Bruce que, entre ambos, havia algo em comum. “Parte de fazer bem o seu trabalho está em ser capaz de se colocar no lugar de outra pessoa e descobrir o que você tem em comum com eles e, portanto, trazer o público para mais perto esses personagens e pessoas”, disse Bruce em entrevista NBR. Além do apoio a movimentos sociais e de igualdade de direitos civis, os dois tinham em comum o gosto por uma canção em particular: “This Little Light of Mine”, interpretada por Seeger em seus shows e que também integra o repertório atual de Springsteen.

Em 2007, o diretor Jim Brown lançou Pete Seeger: O Poder da Canção(assista abaixo), um documentário sobre Pete, que inclui participações de Bob Dylan, Bruce Springsteen, Natalie Maines, Joan Baez, Bonnie Raitt e familiares e do próprio Pete. Um crítico comentou que, considerando que durante toda a sua vida, Pete fez músicas apoiado na crença de que a música pode nos tornar pessoas melhores, quando ele morresse, as pessoas vão querer saber se ele realmente existiu. Se você tem dúvidas, ‘o poder da música’ está aí para mostrar que sim.

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