Douglas Germano e o golpe de vista

douglas germano

Ele é a cara por trás de “Maria da Vila Matilde”, música que fez sucesso na voz de Elza Soares. Em seu último disco, o paulistano mostra esta e outras crônicas brasileiras compostas “do jeito que dá”

[Por Natália Pesciotta*]

É ele quem se apresenta: “Meu samba não serve pra roda / Pra outro sambista cantar / Meu samba tem sua maneira / Meu samba é do jeito que dá”. Experiente nas rodas de samba desde os anos 1980, filho de bamba e formado na bateria da Nenê de Vila Matilde, Douglas Germano abre seu segundo disco solo com uma defesa da autenticidade. “Do jeito que dá”, no caso da faixa “Golpe de Vista” e do álbum de mesmo nome, é um belo jeito.

A autenticidade do compositor, violeiro e tocador de caixinha de fósforo acabou emplacando, quase sem querer, um sucesso no último disco de Elza Soares, A Mulher do Fim do Mundo. É de autoria dele “Maria de Vila Matilde”, em que o vozeirão de Elza, uma entidade, denuncia violência doméstica: “Cadê meu celular eu vou ligar 180”. Parece feita sob medida para a cantora, que nunca escondeu ter vivido a situação Mas, Douglas fez a terceira faixa de seu último disco pensando em sua própria mãe, antes da possibilidade de ser gravado por Elza.

Capa do  disco "Golpe de Vista", de Douglas Germano
Capa do disco “Golpe de Vista”, de Douglas Germano

Sobre o encaixe perfeito, ele comenta, nos shows de Golpe de Vista: “É uma grande honra ter essa música gravada por ela. Lembro de ter assistido uma entrevista sua na tevê, à Marília Gabriela, quando eu era pequeno. Ela falava sobre o assunto e mudou totalmente minha visão. Foi a primeira vez que percebi que devia dizer para algumas pessoas o que acontecia na minha casa. A violência doméstica é assustadora, mas mais assustador é o silêncio. Minha mãe passava semanas sem sair de casa pra ninguém ver os hematomas. E a gente não falava sobre isso”.

Além do trabalho de 2016, Douglas tem Ori e Duo Moviola, este em parceria com Kiko Dinucci. E foi gravado por vários cantores e, principalmente, cantoras. Ouça aqui!

Versa com jeito próprio, perspicaz e delicado sobre temática clássica do dia a dia brasileiro. Acomoda em melodias inusitadas pequenos malandros, personagens quase anônimos, futebol, orixás, relacionamentos.

Destaque para as crônicas urbanas. Atente-se a “Zeirô, Zeirô!!!”, uma paródia da crucificação de Jesus num campo de várzea (“Vila do Calvário, Campo do Cruzeiro”), e “Guia Cruzada”, que fala de um senhor da escola de samba: “Sua cuíca era ferro com ronco de trovão / Por minha parte xogum tava sempre com a razão”.

Para mostrar que, não tem jeito, o samba é um dos ritmos mais autorreferentes, o disco que começa com “Golpe de Vista” termina com “Lama”, que trata sobre o que importa numa música: “Um samba que fale das coisas do mundo, um samba que ninguém precisa explicar / Há de vir com a simplicidade de qualquer amor, de qualquer suor, de qualquer dor, dessas de verdade”. E vem.

*Natália Pesciotta é jornalista, dedica-se à cultura brasileira, comportamento e cidadania. Trabalhou na revista Almanaque Brasil por cinco anos e tem colaborações em diversos veículos, como o jornal Valor Econômico, o site da TPM e o portal avosidade. Acredita que as melhores histórias e músicas são as que nascem do cotidiano. Mantém o blog Atrás da Música, sobre a origem de composições , e o perfil no medium @natipesciotta , com crônicas. Contato: nataliapesciotta@hotmail.com

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