ENTREVISTA: El Efecto e sua ‘música combativa do terceiro mundo’

Uma das atrações do festival Saravá 2019, a banda carioca El Efecto faz música-resistência com muito rock, brasilidade e poesia. Foto: Iuri Gouvêa

[Por Ricardo Leite]

A El Efecto nasceu no Rio de Janeiro em 2002, mas ganha popularidade no contexto dos protestos de 2013, quando manifestantes utilizavam trechos de letras de músicas da banda em cartazes e como gritos de guerra – especialmente faixas como “O Encontro de Lampião com Eike Batista” e “Pedras e Sonhos”. A banda faz um tipo de poesia engajada, na qual cada canção soa bem lapidada, sem esquecer crítica e comentário social; numa tentativa de tocar, como a própria banda descreve, “música combativa do terceiro mundo”.

Com cinco álbuns de estúdio, a El Efecto está em turnê pelo país para apresentar seu último trabalho, Memórias do Fogo, lançado de forma independente em 2018. Antes de se apresentar em Florianópolis no Festival Saravá, no próximo dia 16 de novembro, a banda conversou com o Palco Alternativo sobre o novo disco, os 17 anos de banda e a situação política do país.

Palco Alternativo: O que os motivou a criar a banda 17 anos atrás e o que os motiva a continuar tocando?
El Efecto: Desde o início, o que nos motiva é a possibilidade de fortalecer o movimento que entende a arte como trincheira, como espaço de reverberação e organização das ideias comprometidas com a luta por justiça social. Seguimos motivados a somar nessa função, acreditando na necessidade de sensibilizar, fortalecer bandeiras de luta, articular os sentimentos de indignação e incomodar, tocando em algumas feridas comuns a todos nós.

PA: A El Efecto tem uma trajetória de quase 20 anos. O que vocês acham que mudou da cena independente carioca do começo dos anos 2000 para agora? A cena carioca tem alguma especificidade em relação às cenas independentes de outros lugares, como São Paulo ou Florianópolis, por exemplo?
EE: Não sabemos fazer uma avaliação precisa sobre a evolução da cena. Aqui no Rio, certamente não houve um processo linear de fortalecimento e consolidação de uma cena estruturada. As iniciativas vão indo e vindo, as articulações também, espaços abrindo e fechando e tal, de acordo com a circunstâncias materiais, como tudo mais… Mas tem sempre uma galera que segue acreditando e ralando pra fazer acontecer. São Paulo parece ter mais ofertas em todos os níveis, mais coisas acontecendo sempre. Em Florianópolis, só estivemos uma vez, mas esperamos que essa passagem pelo Festival Saravá seja uma porta de entrada pra que possamos estar mais presentes e nos articularmos por aí.

Na real, vivemos a banda como uma forma de militância. Não só pela questão política, mas também pelo fato da manutenção dela no dia a dia depender, quase que exclusivamente, da vontade, do “amor”, de fazer por acreditar. Nenhum de nós, nem de longe, consegue viver da banda. A imagem da “cena”, pra gente, é um fantasma que está sempre escapando e temos que seguir perseguindo.

PA: A proposta da banda sempre foi ser um caldeirão de ritmos ou é algo que se intensificou nos últimos anos? De onde vem inspiração para compor e quais as referências (musicais ou não) para as composições?
EE: A proposta sempre foi a mesma, baseada na pesquisa de linguagens e estilos, buscando sintetizar algo a partir desses mergulhos nas diferentes tradições. Com o tempo, fomos tentando desenvolver e aprofundar essa pegada, com cuidado, para que a mistura dos gêneros esteja sempre a serviço do sentido de cada música, costurando a unidade entre o som e a palavra.

Sobre as referências, pensando no caso específico do nosso último disco, Memórias do Fogo, seguem algumas: Drummond, Pepetela, Sérgio Vaz, Cassiano Ricardo, Eduardo Galeano, Ferréz, Inquérito, Walter Benjamin, Ingra da Rosa, Lucas Bronzatto, Elaine Freitas, Jeff Vasques, Violeta Parra, Tchaikovski, Snarky Puppy, Clementina de Jesus, Astor Piazolla, Vibra Negra Voz, Helen Nzinga, Magoo Campos, Ozomatli, Karnak, Melvin Santhana, Rage Against the Machine, Som de Preta, Trupe Lona Preta, Companhia Estudos de Cena, Gojira, Moreira da Silva.

Capa do disco Memórias do Fogo, de 2018.

PA: Vocês têm realizado shows para apresentar o último trabalho, Memórias do Fogo, lançado ano passado, e também têm participado de festivais independentes, como o Saravá , de Florianópolis. Como é a recepção do público nos diferentes Estados por onde vocês passam? O que podemos esperar da apresentação do El Efecto no festival Saravá 2019?
EE: Em geral, temos feito mais apresentações para públicos que já conhecem a banda, daí costuma rolar uma recepção bem legal, gente que tá lá porque gosta, acompanha e tal. Mas um dos nossos desafios é conseguir ampliar o público e, para isso, a possibilidade de tocar em Festivais como o Saravá é muito importante pra gente. Estamos com uma grande expectativa. A demora em conseguirmos chegar em Floripa tem o lado bom de que já estamos com um certo acúmulo, um amadurecimento na execução das músicas desse novo disco e no próprio entrosamento da formação atual. Esperamos chegar afiad@s em todos os sentidos!

PA: Nestes 17 anos de estrada, quais os shows do El Efecto vocês destacariam e por quê?
EE: Muita coisa legal aconteceu, mas agora nos vêm às cabeças duas ocasiões:
O show de lançamento do disco Memórias do Fogo, no Teatro Rival, aqui no Rio foi muito especial, uma grande reunião com quase todo mundo que ajudou a construir o disco. Também foi a primeira vez que tocamos com as participações d@s companheir@s que gravaram e compuseram conosco e que, desde então, nos acompanham sempre que possível. Um salve a Nina Rosa, Thiago Kobe, Ingra da Rosa, Rachel Barros, Helen Nzinga, Patrick Laplan, Tomás Além, Uirá Bueno, Rafa Éis e tant@s mais…

Há alguns meses, participamos da mostra “Bagaceira”, organizada pelos camaradas da Trupe Lona Preta, grupo de teatro/circo de São Paulo. Foi um marco pra gente, tanto por consolidar esse encontro com a Trupe, camaradas por quem temos grande admiração e identificação, quanto pelo fato do evento em si encarnar tudo aquilo que mais valorizamos e perseguimos em termos de posicionamento, construção, organização, camaradagem, acolhimento, arte, militância… Naquele dia, estivemos numa trincheira da utopia! Também foi um grande encontro que aprofundou nossos laços com vári@s companheir@s do movimento do Teatro de grupos de São Paulo e reuniu muita gente querida. Um salve à Trupe Lona Preta, ao Engenho Teatral, à cia. Estudo de Cena e aos camaradas Lucas Bronzatto e Jeff Vasques, da Trunca – poesias de luta!

PA: Diante do atual cenário político brasileiro, tem havido uma discussão em que parte do público espera um engajamento quase obrigatório por parte dos artistas enquanto outros apontam que o artista deveria se manter fora do debate. Como um grupo que formou-se com a ideia de trazer debates políticos e sociais nas suas letras percebe essa discussão?
EE: O engajamento é sempre bem-vindo. Dá para entender, pelo nível de boçalidade e escrotidão sem precedentes que nos governa, que essa demanda se coloque de maneira mais generalizada pra todo mundo, no campo da esquerda. O inimigo é muito explícito, uma caricatura de tudo que há de mais podre, asqueroso e hipócrita.

Sentimos que, desde 2013, o ato de se posicionar politicamente voltou a ser algo “quente” e isso carrega certa ambiguidade. Por um lado, é super importante, na medida em que representa um aumento no engajamento, nos debates, na politização da arte e da vida, de maneira geral. Um outro lado, menos interessante, é o fenômeno que transforma o posicionamento político numa moeda, valorizada dentro da lógica do mercado.

Nossa preocupação passa também por aí, pelo desafio de pensar um discurso de arte engajada que contribua com as lutas mais do que capitalize a partir delas. É uma fronteira delicada. Então, quem quiser ir além do hype, tem a tarefa de cultivar um engajamento mais consistente e buscar construir articulações pra além da lógica da mercadoria. Isso não se faz sem recusa, sem algum nível de ruptura.

PA: No site do El Efecto, vocês afirmam “Não se trata de pensar a arte como um escape para as frustrações de uma vida resignada, mas sim de tomá-la como um estímulo, um ponto de partida para questionamentos e – por que não? – transformações concretas”. Diante do atual momento do país, de retirada de direitos da população e ataques a diversos grupos sociais, quais questionamentos podem ser feitos para que transformações concretas aconteçam?
EE: Bom, a essa altura dos acontecimentos, talvez só nos caiba seguir o exemplo dos nosso vizinhos. Que o Chile nos inspire! Que o Haiti seja aqui!

A El Efecto é:
Aline Gonçalves – flauta, clarinete e voz
Bruno Danton – guitarra, trompete e voz
Cristine Ariel – guitarra, cavaco e voz
Gustavo Loureiro – bateria
Tomás Rosati – percussão, cavaco e voz,
Vovô Bebê – baixo e voz
Iuri Gouvêa – “sétimo elemento”, produção

Discografia da banda:
Como Qualquer Outra Coisa (2004)
Cidade das Almas Adormecidas (2008)
Pedras e Sonhos (2012)
A Cantiga É uma Arma (2014)
Memórias do Fogo (2018)

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