Entrevista: você não sabe de nada (ou de tudo um pouco) com O Grilo

Banda paulistana lança disco de estreia repleto de ritmos, gêneros e questões existenciais

Foto: Giulia Lima

Quando falei pela primeira vez sobre a banda paulistana O Grilo, descrevi o trabalho deles como um rock abrasileirado. Pois bem, algum tempo se passou e revejo essas minhas palavras, pois o termo “abrasileirado” é muito pouco para definir a música dos rapazes. Por sorte, o grupo acaba de lançar um novo álbum (o primeiro deles) e, com este registro, eles mostram que eu, você e mesmo eles, não sabem de nada. Mas, calma, está tudo bem.

Encontrei-me com Pedro Martins, Lucas Teixeira, Gabriel Cavallari e Felipe Martins, o Fepa, virtualmente, pelo Zoom (afinal, assim que as coisas funcionam hoje). Os quatro apareceram na tela, estavam juntos em um mesmo quarto e logo esbanjaram saudações e sorrisos simpáticos. Estão aqui, em nosso Palco Alternativo, pelo álbum “Você Não Sabe de Nada”, divulgado recentemente nos mais derivados serviços de streaming com edição do selo Rockambole. 

“Hoje nós estamos em uma área que não é nem mainstream e nem underground. É um espaço que, aqui no Brasil, ainda não se tem uma boa leitura, então o grande desafio é o de como construir esse universo. Não há uma grande sustentabilidade de artistas, principalmente no rock”, conta o baterista Lucas Teixeira. O Grilo alcançou certo impacto com a faixa “Serenata Existencialista”, que desde o seu lançamento, em 2017, no EP “Herói do Futuro”, alcançou mais de 5 milhões de audições só no Spotify. Não é qualquer um que atinge tal êxito sem ter um disco de estúdio, embora os álbuns estejam cada vez mais fora de moda. 

Mas não para O Grilo, que começou a produção de “VNSDN” no primeiro semestre de 2020 e, por conta da pandemia, teve que mudar todos os esquemas de reuniões e gravações. “Quando iniciamos os trabalhos para o disco, tínhamos perspectiva de fazer shows. Claro, isso ainda existe, ainda está aqui, mas temos a plena consciência de que a curto prazo não vai rolar”, diz o baixista Gabriel Cavallari. “Mas todo o processo foi muito interessante. Tivemos que fazer as composições a distância, o Pedro morou com o Fepa por um tempo e, depois, fomos todos para um sítio, em Limeira, interior de São Paulo, para gravar”, completa. 

E por que “Você Não Sabe De Nada”? “Todas as músicas tinham esse pseudo conceito por trás, de um existencialismo mais leve. É uma mensagem do tipo: ‘você não sabe de nada, não tem a menor noção do que está fazendo aqui, mas, ao mesmo tempo, está tudo bem’. A gente meio que quis levantar essa bandeira”, explica Lucas Teixeira. “Essa temática é muito sobre como enxergamos a vida, de modo geral. Acho que tem muito a ver com a escolha da carreira também. Carreira musical não é nada fácil, você sempre tem perguntas do tipo: ‘por que eu estou fazendo isso?’, ‘isso faz sentido?’. Quando você tem esse estalo, tudo bem as coisas não fazerem tanto sentido, o mundo é aleatório mesmo e vamos tentar ser feliz no meio desse caos”, completa Gabriel. 

Ainda que não se saiba de nada, no Grilo, de tudo um pouco se sabe. “Muitas bandas enfrentam períodos de bloqueio criativo, aqui é diferente, a todo momento tem composições e ideias vindo de todas as partes”, conta Pedro. A grande gama criativa dos músicos rendeu ao todo 20 canções (somente 13 entraram no disco) e, como de praxe, uma viagem por diversas sonoridades, desde o pop rock, a mpb até o soul e a lambada. “Somos todos diferentes e ecléticos, então, o nosso grupo soa com a cara de cada um. Usamos essa diferença como artifício musical”, diz Felipe. “Tem também a questão da interpretação do gênero que você toca. Por exemplo, existem pessoas que são especialistas em um determinado tipo de música. Nós não temos como nos aprofundarmos em tudo isso ao mesmo tempo. Muitas vezes, a gente acaba colocando a nossa expressão de um determinado gênero musical. Por exemplo, se temos uma música que é um frevo, o cara que manja muito de frevo vai falar que aquilo não é frevo, mas a galera entende que é. É como se fosse o frevo d’O Grilo e vida que segue (risos)”, finaliza Pedro. 

Nas tirinhas

O álbum “Você Não Sabe de Nada” foi sintetizado em um livro, com tirinhas criadas pelo cartunista Pietro Soldi. O personagem principal chama-se Lauro e nele tem um pouco da personalidade de cada integrante d’O Grilo. “Trouxemos o Pietro para fazer a história do Lauro de acordo com as músicas do álbum. Temos também no livro um textinho para cada música, sobre como surgiu cada faixa e como foi o processo, além das cifras e as letras de todas as canções”, conta Lucas. “Demos total liberdade para o Pietro construir a história, então, na realidade, esse enredo que ele montou é a percepção dele sobre as músicas e super nos identificamos com o resultado”, diz Gabriel. 

Sobre as personalidades, fragmentadas em Lauro, os músicos comentam: “Acho que ele é um pouco emburrado, reclamão, como eu (risos)”, diz Gabriel. “Vejo que ele é meio explosivo, também sou assim, de ter uma ideia e querer levar todo mundo na ideia dele”, comenta Fepa. “O meu lado do Lauro é que ele pensa demais, velho, e ele é meio tadinho. ‘Ai, tadinho dele’ (risos)”, opina Pedro. “Por muito tempo eu já tentei convencer as pessoas ao meu redor sobre o que eu pensava, e ele faz muito disso também”, termina Lucas. 

Um pouco de VNSDN

“Você Não Sabe de Nada” contem 13 faixas que passeiam por diversos ritmos e estilos. “Guitarrada”, por exemplo, tem a guitarra paraense em evidência. “Eu sou de Manaus, tenho muito contato com a galera de lá. Sempre gostei de fazer umas jams e tocar carimbó. É uma parada que sempre fiz aqui com a galera d’O Grilo. ‘Guitarrada’ nasceu em um dia em que eu estava com o Pedro, em frente ao estúdio, tocando violão. Eu fiz a levada e depois nos reunimos e fomos construindo a música. São dois acordes na canção inteira. O ritmo enriquece muito a música”, conta Fepa. 

Entre refrãos, existencialismo ou passagens cômicas, a lírica também é um ponto forte da banda. Uma das canções que mais chamam atenção pelo artifício é “Meu Pior Amigo”. “Eu estava nessa brisa de fazer uma parada mais humorística. No fundo, meu pior amigo sou eu mesmo. É uma letra que tira um pouco de onda. Não sou eu descascando o cara à toa, é só o desejo dele cair em si, saca? Levamos para o estúdio, mas sempre ficamos com um pé atrás com essa música. Hoje, é uma das minhas queridinhas”, conta Pedro. “Nesse período de pandemia, tive de me tornar uma boa companhia para mim mesmo em um momento que talvez eu não fosse. Foi uma letra feita pré pandemia, mas passou a fazer mais sentido agora”, completa. 

Já o baixista Gabriel Cavallari trouxe suas influências de Daft Punk, que beberam muito da fonte da soul music. Uma das faixas do álbum nessa vibe é “Adeus”. “O baixo não foi meu primeiro instrumento, antes eu tocava guitarra. As músicas que me marcavam, no contra-baixo, eram coisas de disco music, soul music, faixas que tinham o som do baixo muito evidente. Então eu precisava trazer isso para a banda. Um dia eu estava indo para o metrô e veio essa linha de baixo na minha cabeça. Ainda bem que eu estava indo para o ensaio, pois tive que ficar cantarolando na minha cabeça. Geralmente eu, o Lucas e o Fepa ficamos tocando, fazendo jams e o Pedro fica só no celular. Quando a gente vai ver ele chega com uma letra (risos). Nesse caso, ele resgatou e repaginou uma letra antiga”, conta Cavallari. “Eu fui resistente com essa música, pois achava muito parecida com muitas coisas. Mas essa que era a pegada mesmo”, conta Fepa. “Dentro de toda essa objetividade, o que poderíamos colocar em ‘Adeus’? Um sax, é claro (risos)”, finaliza Gabriel. 

Entre tantos ritmos, letras e muita criatividade, O Grilo ainda quer queimar muita lenha e, quem sabe chegar a patamares ainda mais altos. “Queremos também encontrar o nosso lugar na música e ajudar essa galera, outros músicos, outras bandas, a viver de música. Tornar isso sustentável”, diz Gabriel. A curto prazo, o grupo planeja uma surpresa para seus fãs. “Temos um próximo passo bem massa, mas ainda não podemos falar, se não levamos bronca (risos)”, conta Lucas. “Mas digamos que planejamos ter parcerias com diversos artistas”, completa Gabriel. 

E você, já ouviu o novo álbum d’O Grilo ou ainda não sabe de nada? Confira: 

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